Um bom psicólogo não teria dificuldade em explicar o fascínio, partilhado por gerações de escritores, por certos objetos ligados ao ofício. Para começar, como não podia deixar de ser, as canetas – e não apenas as de aparo ou tinta permanente, mesmo canetas vulgares podem ter o seu encanto –; os pesa-papéis (e não pisa-papéis, como costumam aparecer descritos), aquelas bolas de vidro que servem acima de tudo para olharmos para elas e nelas perdermos o olhar; e, por último, as máquinas de escrever de todo o tipo.
O norte-americano Paul Auster escreveu um pequeno livro sobre a sua, História da Minha Máquina de Escrever, que as geniais imagens de Sam Messer transformam num pequeno objeto de arte que não me canso de folhear. «Tive vários carros, vários frigoríficos e ocupei vários apartamentos e residências», recordava o autor. «Gastei dezenas de pares de sapatos, larguei montes de camisolas e casacos, perdi ou abandonei relógios, despertadores e chapéus de chuva. Tudo se estraga, tudo se desgasta, tudo acaba por deixar de servir. Mas a máquina de escrever continua. De todos os objetos que tinha há 26 anos é o único que ainda possuo».
E um pouco mais adiante: «Massacrada e obsoleta, relíquia de uma época que rapidamente se esfuma na memória, o diabo da máquina nunca me desiludiu».
Não posso dizer o mesmo das minhas, infelizmente, que por uma razão ou por outra se revelaram difíceis de utilizar. Uma delas, uma bonita Olivetti portátil azul-turquesa, foi vítima de uma agressão de um dos meus filhos, e perdeu duas ou três teclas fundamentais. Arrumei-a a um canto até que tive de fazer limpezas e percebi que a máquina só estava a ocupar espaço.
Antes de a despachar, porém, reparei num pormenor de que ainda não me havia dado conta. Numa faixa prateada na parte de trás lia-se: ‘made in jugoslavia – fabriqué en yougoslavie’. Como assim? As Olivetti não eram todas feitas em Itália? Sempre supus que fossem de design e fabrico italiano. Por outro lado, como foi estranho ver ali escrito o nome de um país que já não existe!
Passada a surpresa inicial, num segundo momento pus-me a pensar nessas relações entre a Itália e a Dalmácia e em como vêm de longe. Pudera, é mesmo ali ao lado. Para começar, em Split ainda hoje se pode apreciar as colunas do palácio onde viveu e morreu o imperador Diocleciano, que depois de se cansar de perseguir os cristãos para ali se retirou para terminar os seus dias longe das intrigas de Roma. Depois, não devemos esquecer que Ragusa (hoje Dubrovnik) esteve durante mais de um século e meio (entre 1202 e 1358) sob o domínio de Veneza, cuja influência se manteve muito para lá desse limite. E não é verdade, em sentido inverso, que uma das atrações de Veneza é a Scuola di San Giorgio degli Schiavoni (mandada construir pelos imigrantes eslavos da Dalmácia), com os seus fabulosos frescos de Carpaccio do santo a matar o dragão?
Talvez não seja também uma coincidência que o marechal Tito, o líder que manteve a Jugoslávia unida após a II Guerra Mundial, partilhasse o nome com um imperador romano que morreu dois mil anos antes dele, em 81 d.C.. E, por fim, recordo-me da ilustre linhagem de jogadores eslavos que atuaram em clubes de futebol italianos – quem sabe, alguns deles fugidos da Guerra dos Balcãs – como Savicevic, Boban, Pantic e Mihajilovic, famoso pelos mísseis de longa distância…
De imperadores romanos a jogadores de futebol, quantas memórias cabem numa velha máquina de escrever Olivetti ‘made in jugoslavia’!