terça-feira, 09 jun. 2026

Entre as panelas e os livros

Conheceria Morandi, que quase não saiu de Bolonha, esta pintura do Siglo de Oro espanhol?

O trajeto de ida e volta deve rondar os sete mil passos, que é aproximadamente o que dizem que devemos dar por dia para manter uma boa condição física. Quanto à duração, depende se faço ou não uma paragem pelo meio, mas andará entre uma hora e uma hora e meia.

Às quartas-feiras, visito a banca do Sr. António no jardim Visconde da Luz, no centro de Cascais. Normalmente trocamos dois dedos de conversa enquanto ele vai dispondo na banca os livros que tira dos sacos: «Hoje atrasei-me um bocadinho», justifica-se. A última coisa que lhe comprei foi uma primeira edição, bastante maltratada, do Astérix.

Nos outros dias costumo espreitar a montra da Galileu. E, se estivermos já perto da dez da manhã, hora a que abre as portas, posso ter a sorte de receber um convite para entrar. A livraria tem sempre qualquer coisa de único, mas naquele silêncio matinal, antes da chegada dos primeiros clientes, respira-se um ambiente ainda mais especial e tranquilo.

Normalmente vou direito à estante do fundo, onde se encontram os livros de arte e arquitetura. É preciso inspecionar as prateleiras com atenção, pois nunca se sabe quando pode aparecer alguma coisa interessante. Nesta última incursão, apanhei um livro espanhol sobre a relação entre o compositor Arnold Schönberg e o pintor Wassily Kandinsky – um, o pai da música atonal; o outro, o pai da pintura abstrata. «A amizade entre Schoenberg e Kandinsky é uma das mais memoráveis constelações no firmamento do século XX; e a abundante correspondência entre eles constitui um marco na história da modernidade», leio no verso. «Recorde-se que este epistolário foi gerado entre 1911 e 1914, período em que Kandinsky abandonou o caminho da figuração na pintura e Schoenberg liquidou a tonalidade tradicional». Fiquei convencido.

Depois da estante do fundo, vagueio pelo resto da livraria. Há tempos, ainda aborrecido por poucas semanas antes ter deixado escapar um bonito calhamaço sobre a Roma de Borromini, o genial arquiteto barroco e rival de Bernini, deparei-me, onde não seria de esperá-lo, com um prémio de consolação: Borromini nella cultura europea, do mesmo autor, Paolo Portoghesi. Com a vantagem de não ter tido de fazer todo o percurso de volta – uns 3.500 passos – com o pesado calhamaço debaixo do braço.

Desta última vez, tinha já pago e desejado um bom dia à minha simpática anfitriã, mas com o olhar, como um radar, sempre a perscrutar os títulos em volta. Curiosamente, este deteve-se não num livro, mas numa estampa. Uma pintura extraordinária, certamente espanhola, mostrando uma mesa ou bancada e, pousados sobre ela, quatro recipientes para líquidos: um de latão ou prata dourada; dois outros aparentemente de faiança; e um último de terracota. Há inegáveis conotações religiosas, até porque o primeiro é um cálice e encontra-se sobre uma salva metálica, tal como outro dos recipientes, uma bacia (?) de faiança. Lembramo-nos da passagem do Novo Testamento que refere que, quando o soldado romano abriu um golpe no flanco de Jesus com a sua lança, saíram da ferida jactos de sangue (que representa a natureza humana, carnal) e de água (que representa o espírito, a natureza divina).

Mas o que mais me impressiona talvez é a semelhança desta pintura com os quadros de Giorgio Morandi, que, no quarto do apartamento onde vivia com as irmãs e a mãe, pintou incessantemente as mesmas garrafas e vasilhas, em diferentes combinações, e as suas modulações luminosas nos mesmos tons claros. Conheceria Morandi, que quase não saiu de Bolonha, esta pintura do Siglo de Oro espanhol?

Viro a estampa e, nas costas, leio a legenda: «Francisco de Zurbarán, Bodegón con cacharros, 1650, Museu do Prado». Há um pequeno texto explicativo, que termina de forma oportuna com esta frase maravilhosa de Santa Teresa de Ávila: «Entre as panelas, também anda o Senhor». Agora em espanhol: «También entre los pucheros anda el Señor’». Entre as panelas e, suspeito eu, às vezes também entre os livros.