terça-feira, 21 jul. 2026

Dante e os quatro gigantes do Renascimento 

Rafael e Miguel Ângelo pintaram retratos de Dante. Leonardo também terá admirado o poeta. 

Aqui há tempos meti-me a ler A Divina Comédia de Dante, na tradução bilingue de Vasco Graça Moura. Aliás, na capa da minha edição (Bertrand, 1997), aparece, por esta ordem: ‘Vasco Graça Moura, A Divina Comédia de Dante Alighieiri’. 

Não consigo encontrar um melhor resumo do grande poema de Dante do que o fornecido pelo tradutor nas riquíssimas páginas da introdução. Graça Moura fala numa «epopeia do conhecimento humano apostado na busca obsessiva de uma verdade do Ser, busca essa que, aqui, culmina na visão de Deus, termo do arco sustentado que vai do desespero humano e da miséria humana a uma absoluta serenidade final»

Em termos cronológicos, essa experiência que vai do desespero à visão de Deus decorre ao longo de uma semana apenas. Cito novamente o tradutor: «Um homem desesperado, aos 35 anos, no meio do caminho da sua vida, segundo a formulação de Isaías, diz ter empreendido uma jornada singular entre a noite de Quinta-Feira Santa (7 de Abril) da Páscoa do ano de 1300 e a quarta-feira seguinte (13 de abril)»

Sendo A Divina Comédia a síntese e obra-prima da Idade Média, parece-me espantoso que Dante tenha escolhido para guia nesta sua jornada um poeta da Antiguidade Clássica, algo que só esperaríamos pelo menos cem anos depois, no primeiro Renascimento. Dante declara mesmo o «grande estudo» e o «grande amor» que dedicou aos versos de Vergílio. Diz ele do poeta clássico: 

«Pois tu és o meu mestre, o meu autor; 

és tu aquele só de quem tirei 

o belo estilo que me deu valor.» (Canto I) 

Ou seja, o estilo é assumidamente imitado de Vergílio! Apesar disso – e aqui adota uma posição que poderíamos considerar ‘moderna’ –, Dante opta por escrever em italiano vulgar. A veneração por Vergílio não chega ao ponto de o convencer a escrever em latim, o que parece um tanto contraditório. 

Regressando à dicotomia Idade Média/ Renascimento, o corte talvez não tenha sido tão radical quanto poderíamos supor ou quanto sugerem as visões mais esquemáticas. 

Notemos que: 

1. Sandro Botticelli, o autor de O Nascimento de Vénus, ilustrou A Divina Comédia em finais do século XV (dois dos 92 desenhos que nos chegaram estiveram em exposição na Gulbenkian há cinco anos).  

2. Rafael Sanzio deixou-nos um retrato de Dante na Disputa do Santíssimo Sacramento, o fresco da Stanza della Segnatura que se encontra na parede em frente à famosa Escola de Atenas. De um lado, Sócrates, Platão, Aristóteles, Arquimedes, Pitágoras, etc. Do outro lado, figuras da Bíblia, santos, teólogos, papas e ainda criadores como Dante e Fra Angelico. 

3. Também Miguel Ângelo, expoente máximo do Renascimento pleno (e também ele poeta), leu Dante e fez um retrato dele no fresco do Juízo Final. 

Ou seja, dos quatro gigantes do Renascimento, só Leonardo não nos deixou uma inequívoca prova de admiração pelo grande poeta, embora se pense que um dos seus primeiros desenhos, Paisagem do Vale do Arno (1473), se tenha inspirado no poema épico de Dante. 

E lembremos que foi ainda de Dante que Miguel Ângelo retirou a cena inesquecível em que Caronte, de olhos esbugalhados, se prepara para assestar com o remo nos condenados, todos encolhidos com medo do embate. 

«E Caronte, demónio de olho em brasa; 

fazendo-lhes sinal de que os recolha, 

dá co remo nalgum que mais se atrasa.» 

E, não querendo nós correr o risco de nos atrasarmos também, fiquemo-nos por aqui nesta primeira incursão na arte d’A Divina Comédia.