segunda-feira, 17 ago. 2026

Como lidar com tamanho empecilho?

Para o leitor escrupuloso, existe um último obstáculo a superar antes de poder dar um livro por terminado. Refiro-me às notas finais, impressas em letras miudinhas como insetos, que ocupam as últimas páginas dos livros de História, biografias, etc. Antigamente, eram apenas as eruditas obras académicas que incluíam estas notas, mas hoje, exceptuando os romances, são poucos os livros que lhes escapam.

Para o leitor escrupuloso, existe um último obstáculo a superar antes de poder dar um livro por terminado. Refiro-me às notas finais, impressas em letras miudinhas como insetos, que ocupam as últimas páginas dos livros de História, biografias, etc. Antigamente, eram apenas as eruditas obras académicas que incluíam estas notas, mas hoje, exceptuando os romances, são poucos os livros que lhes escapam. Dirigidas aos especialistas, têm um interesse quase nulo para o cidadão comum, e o tamanho diminuto da fonte torna tudo mais difícil. Ainda assim, o leitor escrupuloso - ou deveria dizer obstinado? - lê-as com o mesmo sentido do dever com que um pescador remenda as suas redes depois da faina, não vá escapar-se por ali algum peixe valioso.

Passemos ao caso em questão, o livro que estou a terminar por estes dias.

O corpo do texto principal, incluindo abundância de imagens, tem 490 páginas; segue-se um apêndice de textos complementares com 65 páginas; outras 46 páginas de notas; e, por fim, 11 páginas de bibliografia. O que perfaz o gradioso total de 615 páginas - das quais 122 de inoportunos ‘apêndices’.

Como lidar com tamanho empecilho?

Para o leitor escrupuloso - ou deveria dizer picuinhas? - ignorar pura e simplesmente os ‘apêndices’ está fora de questão.

Os textos complementares, ainda vá, leem-se sem sacrifício.

A bibliografia, apesar de tudo, são 11 páginas. Tolera-se.

Mas e as notas?

Lê-las à medida que aparecem no corpo do texto não é viável, porque andar constantemente a saltar páginas para trás e para a frente interrompe a cadência da leitura e o raciocínio. Lê-las de enfiada no fim de tudo seria uma opção, mas representaria um esforço penoso, não muito diferente de correr um sprint depois de uma maratona...

Assim, optei por uma terceira via, um compromisso: ler as respetivas notas depois de terminar cada capítulo, como uma dívida que se vai saldando em suaves prestações.

Chegámos àquele momento em que é legítimo perguntar, tudo espremido, o que se retira de páginas e páginas preenchidas com referências como esta, escolhida ao acaso: «PG 100, 428. Cf. Lange 1969, 213. On the theme of similarity, cf. the literature in n. 36 above, esp. Ladner 1953, 15 ff., and P. Schwanz, Imago Dei als anthropologischen Problem in der Geschichte der alten Kirche (Halle, 1971)».

Obviamente quase nada. Mas, neste livro sobre ícones e relíquias na Idade Média, encontro uma referência inesperada. É o título de um livro de 1978: Furta Sacra: Theft of Relics in the Central Middle Ages - traduzindo, ‘roubo de relíquias na Idade Média plena’.

Como assim? Seguidores de uma religião que tem como um dos seus mandamentos fundadores ‘Não roubarás’ roubavam objetos religiosos? E não temiam o castigo?

Seja como for, parece-me que isso ajuda a explicar vários casos documentados de desaparecimentos misteriosos - se não ‘miraculosos’ - de ícones. Como uma imagem da Virgem que no século XIII regressou inexplicavelmente ao seu lugar de origem, depois de ter sido levada, a pedido do Papa, para o palácio de Latrão. «A abadessa, que estava na igreja a lamentar-se, viu a imagem a entrar pela janela». O Papa, sabendo disso, deixou a imagem ficar sossegada.

E é este o tipo de coisas que o leitor escrupuloso - ou deveria dizer obsessivo? - encontra enquanto vai peneirando as notas de rodapé.

Ocorre-me, ao terminar o livro, que haverá certamente leitores ainda mais escrupulosos, que não apenas lêem todas as notas, como vão ainda consultar uma a uma as obras citadas. E pergunto-me se naquele emaranhado de referências e remissões, como no paradoxo de Zenão, alguma vez chegarão realmente ao fim do livro.