Este ano decidi abrir uma exceção e trouxe para as férias um livro em inglês, uma daquelas aquisições recentes cuja leitura, por algum misterioso motivo, se torna imperiosa. O título é Paris in Ruins - The Siege, the Commune and the Birth of Impressionism (em português: ‘Paris em Ruínas - o Cerco, a Comuna e o Nascimento do Impressionismo’). O autor é Sebastian Smee, crítico australiano vencedor do Pulitzer, que assinou um excelente livro sobre o pintor Lucian Freud.
Estamos em 1870 e Napoleão III (sobrinho de Bonaparte) ocupa o trono há praticamente duas décadas. Paris é a capital incontestada da Europa culta, rica, elegante e sofisticada. Mas o prestígio de Napoleão III está em rápido declínio.
Há uma nova potência em ascensão, a Prússia de Bismarck. Quando o trono de Espanha fica vago em 1868, a Prússia apresenta o seu candidato, o que os franceses consideram um insulto. A Prússia acaba por retirar a candidatura, mas os franceses exigem mais garantias, algo que os prussianos não estão dispostos a conceder.
Confiante na superioridade da França, Napoleão III declara guerra à Prússia. Sucede que esta última tinha passado por um recente processo de modernização, industrialização e militarização. Os primeiros confrontos mostraram que estava mais bem preparada do que se pensava. Num volte-face que pareceria impensável meses antes, o exército prussiano triunfa na batalha de Sedan e começa a marchar em direção a Paris. Napoleão III, que declarara a guerra em grande medida para se consolidar a nível interno, vê-se forçado a abdicar, sendo nomeando um novo governo de defesa nacional, liderado por um republicano moderado.
Ainda só falei de política e guerra. Mas os grandes protagonistas deste livro são os artistas. Em lugar de destaque, o sedutor Édouard Manet, que combateu na guerra Franco-Prussiana, e a sua amiga Berthe Morrisot, que ficou em Paris a enlanguescer durante o cerco. As cartas destes para as respetivas famílias mostram bem as provações sofridas pelas classes privilegiadas durante aquele período. O frio no inverno de 1870-1871 bateu recordes. Aliado à escassez de comida e às epidemias, fez estragos entre a população. O desespero levou ao abate dos cavalos e dos animais do jardim zoológico, incluindo dois elefantes gémeos que faziam as delícias das crianças. Uma testemunha que provou a carne dos paquidermes descreveu-a como «rija, áspera e oleosa».
Outra figura proeminente de Paris in Ruins é o fotógrafo Nadar (em cujo estúdio viria a ser organizada a primeira exposição impressionista, em 1874), aqui no papel de balonista. Foi por sua iniciativa que se iniciou o serviço postal feito com balões de ar quente lançados de Montmartre, que conseguiam romper o cerco prussiano carregados com cartas dos parisienses sitiados.
E, por fim, não devemos esquecer o pintor Frédéric Bazille, também ele proveniente de uma família abastada, amigo de Manet e protetor de Monet (que estava sempre com falta de dinheiro). Do alto do seu 1,88 m., Bazille dava nas vistas. Podia perfeitamente ter-se recolhido na propriedade da família no Sul de França, onde se produzia vinho, mas decidiu alistar-se. Um amigo disse que era louco. «A 28 de Novembro, Bazille foi promovido ao posto de primeiro-sargento, declarando, em resposta a um brinde de felicitação: ‘Sei que não vou ser morto; ainda tenho muitas coisas para fazer na vida’», escreve Smee. E tinha. Pertencia ao grupo de artistas, liderado por Manet, apostado em renovar a aborrecida arte académica dos Salons. Mas no dia seguinte ao brinde, enquanto avisava um grupo de civis que estavam perigosamente perto da linha de fogo inimigo, expôs-se demasiado e foi mortalmente atingido.