Tinha ouvido falar da Re-Read, em Alvalade, e decidi ir ver com os meus próprios olhos esta livraria de livros em segunda mão baratos. Da Avenida da Igreja, onde tínhamos estacionado o carro, até lá, foram cinco ou dez minutos a pé, não mais do que isso. A grande montra de vidro topa-se à distância.
Infelizmente, ao chegar, bati com o nariz na porta. Tinha esperança de que mesmo sendo feriado a livraria pudesse estar aberta, mas não. Paciência, teria de ficar para uma próxima oportunidade. E eis então que, num recanto, vislumbro uns sacos grandes do supermercado… isso mesmo: cheios de livros.
Começando a vasculhar, primeiro de forma hesitante, depois mais à vontade, o que vejo não me seduz por aí além. Literatura religiosa – deveria dizer beata? – e coleções com vários volumes, uma das quais sobre maravilhas da natureza e da arqueologia. Não que seja completamente desinteressante, mas não me estou a ver a fazer o caminho de volta, debaixo do calor intenso, carregado com os antiquados volumes a cheirar a humidade.
Noutro saco, vejo um monte de revistas amarelas: National Geographic. A coisa começa a compor-se.
Quem terá deixado aqui estes livros? Alguém que vinha entregá-los na livraria e a encontrou fechada, como eu, e não quis ter o trabalho de levá-los de volta? Ou terá sido a própria livraria que os rejeitou por achá-los invendáveis?
Estou a remexer nas revistas quando aparece uma senhora vestida de preto, de alguma idade e aspeto modesto.
- Os sacos são seus? – pergunta.
Acho que já fiz asneira quando me pus a mexericar onde não era chamado. Começo a balbuciar uma desculpa qualquer, suspeitando que os sacos possam pertencer à recém-chegada. Talvez se trate de uma sem-abrigo letrada que escolheu este cantinho para se refugiar. Mas não. Afinal, também ela ficou intrigada com os sacos e junta-se a mim. Já somos dois a vasculhar os sacos.
A senhora adiantou-se e pegou numa das revistas que eu tinha sinalizado. Não é grave. No fim, escolho três ou quatro números da National Geographic e um outro livro que descobri no meio dos missais e dos fascículos de lavores. Sebastian ou Paixões Dominantes, de Lawrence Durrell, também autor d’O Quarteto de Alexandria, o mais velho dos quatro irmãos Durrell, todos nascidos na Índia, que depois da morte do pai se instalaram com a mãe viúva na ilha de Corfu. A capa mostra um desenho cativante de uma caravana de camelos. Levo-o mais como lembrança do que outra coisa.
Já sentado à sombra dos pinheiros da Inatel, começo a folhear uma das revistas. Nem é a que tem os temas mais promissores. Mas antes das reportagens de maior fôlego encontro uma série de pequenos textos cheios de curiosidades. Um fala da salamandra-lusitânica, que liberta a cauda quando se sente ameaçada, «esperando que o movimento [da cauda] desvie a atenção» do predador (a explicação é do biólogo Nuno Ferrand). Outro revela o processo através do qual a imagem de Che Guevara se tornou um ícone pop, para grande irritação do autor da famosa foto, Alberto Korda. Outro avança uma hipótese para a origem das conchas – «um aumento gigantesco de cálcio oceânico ocorrido há 515 milhões de anos». Descobri ainda que a pele dos hipopótamos liberta um líquido vermelho e que por isso os gregos antigos pensavam que este animal suava sangue; que nas fábricas cubanas de charutos havia lectores, pessoas que liam romances para entreter os trabalhadores, hoje uma profissão em vias de extinção; e que o brilho «entre os cornos da Lua» (ou seja, fora da parte iluminada pelo Sol) se deve à luz refletida pela Terra – e que o aumento ou diminuição desse brilho pode ajudar a prever o clima no nosso planeta.
Quantas coisas aprendi com uma só revista apanhada à socapa à porta de uma livraria fechada! Alguém me tinha dito que a Re-Read praticava uns preços simpáticos. Não imaginava que lá pudesse encontrar tantos livros e revistas de graça.