quarta-feira, 15 abr. 2026

A chegada da primavera

Rodeado pela natureza,foi ali apanhado pelo confinamento. Não se importou nada.

No passado dia 12 de março, em vésperas da chegada da primavera, foi inaugurada na Serpentine Gallery, em Londres, a exposição David Hockney: A Year in Normandie and Some Other Thoughts about Painting (David Hockney: Um Ano na Normandia e Uns Outros Quantos Pensamentos sobre Pintura).

A história da exposição remonta a finais de 2018, quando o artista e o seu assistente tinham acabado de marcar presença na inauguração dos vitrais pintados por Hockney para a abadia de Westminster. Estava previsto regressarem a Los Angeles, mas a perspetiva do voo de mais de dez horas era no mínimo desmoralizante para o artista de 81 anos. Assim, decidiram passar três dias no norte de França para recarregar baterias.

Acontece que, a caminho entre a cidade portuária do Havre e Paris, onde se dirigiam para ver a série de tapeçarias medievais ‘A dama e o unicórnio’, pararam numa quinta do século XVII chamada La Grande Cour. «Hockney apaixonou-se pela casinha ‘dos sete anões’ com as suas traves de madeira de olmo irregulares e um telhado íngreme de duas águas», escreve James Cahill em David Hockney, um livrinho de capa amarela da série ‘Lives of the artists’. «Ao fim de 25 minutos tinha decidido comprá-la. Foram contratados construtores para criar um estúdio de alta tecnologia num antigo lagar de cidra adjacente à casa. Em março de 2019, Hockney já se tinha instalado».

Rodeado pela natureza e por árvores de fruto – que não se cansava de pintar – foi ali apanhado pela pandemia da covid e pelo confinamento. Não se importou nada.

«Direcionou a sua energia e concentração para a chegada da primavera, assim como fizera uma década antes no Yorkshire», continua Cahill. «Levantando-se às cinco da manhã, desenhava no iPad ao ar livre, captando a metamorfose gradual das árvores nuas em folhas e maravilhando-se com a variedade de flores. As noites eram passadas tranquilamente com cigarros e cerveja sem álcool e, na ausência da televisão, lendo livros».

Os menos familiarizados com a obra de David Hockney poderão talvez estranhar esta referência aos desenhos no iPad – e porventura ainda mais por se tratar de alguém na casa dos 80. Na realidade, mostra até que ponto se trata de um artista livre e descomplexado.

O livrinho de Cahill descreve com algum pormenor como o pintor experimentou meios pouco convencionais como a máquina instantânea Polaroid, as fotocópias, o fax, o Photoshop e, por fim, o iPhone e o iPad. A rapidez com que este último permite trabalhar deixou-o rendido. «Picasso teria ficado louco com isto», comentou.

É, pois, o resultado desse encontro casual com uma quinta na Normandia e o olhar de Hockney sobre a natureza e as estações que se encontra por estes dias em exposição na Serpentine (também ela uma galeria que se relaciona com o parque à sua volta). «Omundo é muito, muito belo se olharmos para ele», defende. Olhando para as suas pinturas, não temos dúvidas sobre isso.

Lembramo-nos também da resposta que Pierre-Auguste Renoir deu a Charles Gleyre, quando este lhe elogiou a habilidade, mas lhe reprovou a atitude demasiado descontraída: «Parece que pinta para se divertir...», disse Gleyre ao jovem estudante. «Pois claro», ripostou Renoir. «Se não me divertisse, porque é que haveria de pintar?».