No passado dia 12 de março, em vésperas da chegada da primavera, foi inaugurada na Serpentine Gallery, em Londres, a exposição David Hockney: A Year in Normandie and Some Other Thoughts about Painting (David Hockney: Um Ano na Normandia e Uns Outros Quantos Pensamentos sobre Pintura).
A história da exposição remonta a finais de 2018, quando o artista e o seu assistente tinham acabado de marcar presença na inauguração dos vitrais pintados por Hockney para a abadia de Westminster. Estava previsto regressarem a Los Angeles, mas a perspetiva do voo de mais de dez horas era no mínimo desmoralizante para o artista de 81 anos. Assim, decidiram passar três dias no norte de França para recarregar baterias.
Acontece que, a caminho entre a cidade portuária do Havre e Paris, onde se dirigiam para ver a série de tapeçarias medievais ‘A dama e o unicórnio’, pararam numa quinta do século XVII chamada La Grande Cour. «Hockney apaixonou-se pela casinha ‘dos sete anões’ com as suas traves de madeira de olmo irregulares e um telhado íngreme de duas águas», escreve James Cahill em David Hockney, um livrinho de capa amarela da série ‘Lives of the artists’. «Ao fim de 25 minutos tinha decidido comprá-la. Foram contratados construtores para criar um estúdio de alta tecnologia num antigo lagar de cidra adjacente à casa. Em março de 2019, Hockney já se tinha instalado».
Rodeado pela natureza e por árvores de fruto – que não se cansava de pintar – foi ali apanhado pela pandemia da covid e pelo confinamento. Não se importou nada.
«Direcionou a sua energia e concentração para a chegada da primavera, assim como fizera uma década antes no Yorkshire», continua Cahill. «Levantando-se às cinco da manhã, desenhava no iPad ao ar livre, captando a metamorfose gradual das árvores nuas em folhas e maravilhando-se com a variedade de flores. As noites eram passadas tranquilamente com cigarros e cerveja sem álcool e, na ausência da televisão, lendo livros».
Os menos familiarizados com a obra de David Hockney poderão talvez estranhar esta referência aos desenhos no iPad – e porventura ainda mais por se tratar de alguém na casa dos 80. Na realidade, mostra até que ponto se trata de um artista livre e descomplexado.
O livrinho de Cahill descreve com algum pormenor como o pintor experimentou meios pouco convencionais como a máquina instantânea Polaroid, as fotocópias, o fax, o Photoshop e, por fim, o iPhone e o iPad. A rapidez com que este último permite trabalhar deixou-o rendido. «Picasso teria ficado louco com isto», comentou.
É, pois, o resultado desse encontro casual com uma quinta na Normandia e o olhar de Hockney sobre a natureza e as estações que se encontra por estes dias em exposição na Serpentine (também ela uma galeria que se relaciona com o parque à sua volta). «Omundo é muito, muito belo se olharmos para ele», defende. Olhando para as suas pinturas, não temos dúvidas sobre isso.
Lembramo-nos também da resposta que Pierre-Auguste Renoir deu a Charles Gleyre, quando este lhe elogiou a habilidade, mas lhe reprovou a atitude demasiado descontraída: «Parece que pinta para se divertir...», disse Gleyre ao jovem estudante. «Pois claro», ripostou Renoir. «Se não me divertisse, porque é que haveria de pintar?».