No passado sábado, véspera de eleições, estava eu a fazer algo que hoje em dia raramente faço: ver televisão (ou melhor, ouvir) enquanto cozinhava. Passava um longo tempo de antena na SIC Notícias, com vários chefs e outros protagonistas a debater em directo, queixando-se das baixas margens de lucro e das dificuldades no setor da restauração. Quem me dera que os Cuidados Continuados e o sector social merecessem igual atenção.
Uma das primeiras medidas do Governo de António Costa, mal tomou posse, foi baixar o IVA da restauração de 23% para 13%. E os restaurantes refletiram essa descida nos preços ao consumidor, certo? Errado. Meteram mais 10% de lucro ao bolso. Então, porque não repor o IVA da eletricidade, baixando de 23% para 6%, beneficiando todos? Nada disso. O mesmo António Costa impôs aumentos dos salários ao sector social em geral (onde se incluem a educação e os cuidados continuados), fazendo subir imenso os custos das entidades. Em contrapartida, os aumentos de preços pagos pelo Estado foram miseráveis — cerca de 1% ao ano para o setor social (idosos, deficiência, infância) — e, no caso dos cuidados continuados e da educação, os preços ficaram mesmo congelados. Referi-me várias vezes a esta situação como: A Troika saiu de Portugal, mas chegou ao sector social com António Costa e o seu PS.
Entretanto, com o boom do turismo, o sector da restauração cresceu imenso, juntamente com os preços, nalguns casos proibitivos para o Tuga ir comer fora.
Depois veio a Covid e a maioria dos sectores sofreu bastante - não foi apenas a restauração. Ainda assim, para esses houve apoios. Já nos cuidados continuados, com os preços de certos consumíveis a subir uns milhares por cento e os salários a continuarem a aumentar, o Governo manteve os valores pagos às unidades de cuidados continuados congelados. O mesmo aconteceu na educação (CRI – Centros de Recursos Para a Inclusão).
Entretanto vem a invasão da Ucrânia pela Rússia e os preços da energia subiram exponencialmente. Mais uma vez, surgiram vários apoios para diversos sectores. Para os cuidados continuados, mais uma vez, zero apoio.
Volvidos quase 9 anos de Governo PS, o PSD chega ao Poder com Luís Montenegro. Este, apesar das promessas que levaram muita gente, nomeadamente no sector social e dos cuidados continuados, a entregar-lhe o voto, governou sempre “à Costa”, como alma gémea, não cumprindo as promessas que o levaram a ser eleito.
Por isso, não foi com espanto — infelizmente já estou habituado a que PS e PSD governem sempre para os mesmos sectores, distribuindo o parco dinheiro dos nossos impostos para beneficiar alguns, enquanto esmifram outros não lhes permitindo ter condições dignas de vida — que vi o anúncio de mais apoios aos “pobres coitados” da restauração que viveram dificuldades na Covid (que foi mesmo quando? Lembram-se?).
À data em que escrevo, a 22 de Janeiro, ainda não foi publicada a portaria para aumentar os preços dos cuidados continuados, e duvido que venha a ser. Aumento esse que foi chumbado pelo PSD, sob proposta do Chega, aquando da votação do Orçamento do Estado. Estamos a falar de um valor anual que não chega aos 17 milhões de euros (aos quais ainda se descontariam os valores pagos pelas famílias) e que serviria para ajudar a suportar os aumentos salariais impostos pelo Governo e os custos resultantes da subida generalizada de bens e serviços.
Os preços que o Estado paga às IPSS da educação são também exatamente os mesmos há 9 anos consecutivos.
Deixar fechar uma Unidade de Cuidados Continuados (que prestam desde cuidados de reabilitação para que o doente volte á sua vida normal, até aos cuidados de pessoas em fim de vida) por dificuldades financeiras impostas pelo Governo, não parece haver problema. Já deixar fechar um restaurante porque tem pouco lucro (eu acrescento: declarado) ou porque é mal gerido ou porque todo o empresário decidiu apostar em algo que o mercado já tem por excesso; isso sim é um verdadeiro drama e o dinheiro dos nossos impostos tem de ir socorrer.
Não sei se o Primeiro-Ministro percebeu, ou talvez não, que a votação no candidato presidencial do seu partido é o reflexo do descontentamento de quem já não acredita no PS nem no PSD e está cansado de mais do mesmo.
Enquanto cidadão, desejava que um dia alguém governasse para bem de todos e que não se limitasse a gerir mal o dinheiro dos nossos impostos, dificultando a vida à maioria para dar uma vida ainda melhor a algumas minorias já bastante privilegiadas.