Num momento em que a pressão para reduzir o consumo energético se torna urgente, o ensino à distância surge novamente como uma solução tentadora. A lógica é económica, ambientalmente sensata e vem diretamente da Comissão Europeia: menos deslocações, menos emissões, menos custos operacionais. No entanto, esta aparente eficiência esconde um risco profundo para setores onde a excelência depende de algo que um ecrã nunca poderá transmitir: a experiência prática direta.
Para os futuros biólogos, bioquímicos ou investigadores biomédicos, a questão não é se o digital pode ajudar, mas se pode substituir o laboratório real. O que acontece aos estudantes cuja formação não se faz através de ecrãs e downloads, mas com as mãos, reagentes e microscópios? Será um laboratório virtual suficiente para formar os cientistas de amanhã?
A resposta, sustentada pela própria epistemologia da Ciência, é um retundo “não”. A formação nestas áreas assenta num pilar irredutível: a aprendizagem prática, o "aprender-fazendo". Esta não é uma componente acessória ou um complemento lúdico ao teórico; é o próprio método. É no laboratório que o conhecimento deixa de ser uma abstração e se torna uma experiência corpórea e crítica. O ensino remoto, por mais sofisticado que seja, esbarra numa barreira intransponível: ele simula, mas não permite fazer.
Vejamos porquê. A destreza manual - a calibração fina de uma micropipeta, a preparação de uma lâmina histológica sem criar bolhas de ar, a técnica asséptica para manipular culturas celulares - não se adquire a ver tutoriais. Adquire-se através da repetição física, do erro e da correção tátil, desenvolvendo uma memória muscular que um quiz online não avalia. Um estudante pode acertar todas as questões sobre o protocolo de um PCR num exercício digital, mas se, na bancada, contaminar a amostra por não ter dominado os procedimentos básicos desse mesmo protocolo, o conhecimento é nulo.
Mais crucial ainda é a confrontação desse “virtual” com a complexidade descoordenada do “real”. Num simulador “virtual”, um protocolo terá sempre a tendência de correr bem. No laboratório “real”, os equipamentos falham, os reagentes podem estar degradados, os controlos dão resultados inesperados. É nesta frustração produtiva que se forja o pensamento científico autêntico: a capacidade de diagnosticar um problema, de improvisar uma solução, de distinguir um artefacto de um resultado. Esta dimensão de resolução de problemas in situ, que exige observação aguçada, discussão imediata com o professor e os colegas da bancada, e ajuste de procedimentos, é simplesmente inexistente num ambiente virtual (as)síncrono, por melhor que seja a ligação de vídeo.
Mas sejamos claros; há, obviamente, um papel valioso para as ferramentas digitais. Simulações de técnicas complexas ou de equipamentos de milhões de euros podem oferecer uma familiarização preliminar preciosa. A realidade virtual pode permitir "treinar" uma dissecação ou uma técnica cirúrgica vezes sem conta, sem custos éticos ou materiais. São ferramentas de otimização e democratização de acesso. Mas são ferramentas, não o fim. O perigo reside em confundir o meio com o objetivo. Se a crise energética nos levar a aceitar um modelo remoto como padrão para estas áreas, estaremos a produzir uma geração de teóricos da biologia ou da bioquímica com um défice grave de competências práticas. Serão profissionais que compreendem os manuais, mas tremem perante uma bancada de laboratório; que dominam a teoria dos artigos, mas não sabem gerar dados fiáveis com as próprias mãos.
O desafio que esta crise (petrolífera, ambiental, económica, ética e de valores humanos – que não vamos discutir aqui), nos coloca não é entre o presencial e o remoto. É um desafio de inteligência pedagógica: como desenhar um modelo híbrido que preserve a essência do "aprender-fazendo" enquanto responde às restrições energéticas e ambientais? A solução pode passar por concentrar a formação prática em blocos intensivos presenciais (bootcamps laboratoriais), reduzindo drasticamente as deslocações semanais, mas garantindo que o tempo presencial é denso, focado e
insubstituível. Pode passar por um investimento redobrado em parcerias com laboratórios locais para aulas práticas, estágios e projetos de investigação aplicada que liguem, desde cedo, os estudantes aos desafios concretos da comunidade e do tecido empresarial local. Pode exigir que usemos o digital para preparar melhor cada minuto no laboratório físico. Mas o “virtual” nunca pode substituir o “real”.
A crise não deve ser a desculpa para esvaziar a formação científica do seu núcleo experimental. Deve ser, isso sim, o impulso para a repensarmos com mais criatividade e rigor. O futuro da Ciência e da Investigação em Portugal dependerá, em grande medida, das mãos que hoje estamos a treinar na bancada do laboratório. Não podemos permitir que fiquem apenas a clicar.
Professor Auxiliar
Escola de Psicologia e Ciências da Vida
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias