A NATO foi criada assente num duplo pressuposto. Em primeiro lugar, como mecanismo para assegurar a segurança europeia no contexto de confronto entre duas conceções do mundo, o comunismo e o capitalismo democrático-liberal. O mundo era então (e assim permaneceu até 1989) bipolar, com as duas superpotências nucleares - os EUA e a URSS - envolvidas numa acesa disputa global. As luzes da ribalta incidiam sobre a Europa, com as duas superpotências observando-se, olhos nos olhos, sem nenhuma piscar primeiro. Para além da potencial ameaça soviética (que, diga-se, sempre foi mais efetiva em palcos na África, Ásia e América Latina), o lugar de destaque da Europa na estratégia de segurança dos EUA justificava-se ainda pelos EUA se verem como uma potência europeia, por história e afinidade cultural e política. A NATO, para além da garantia de segurança da Europa, era o lugar geométrico dessa afinidade: uma organização militar que era, também, a corporização do conceito de ‘Ocidente’ e da sua criação que foi a ordem liberal internacional. A NATO era o ‘enforcer’ dessa ordem e a sua própria expressão; era um corpo e uma ideia.
A China e Donald Trump ‘viraram a mesa’. Na segunda década no século XXI a China afirmou-se como uma nova superpotência nos planos militar, económico e científico, pondo fim ao equilíbrio unipolar existente desde o colapso da União Soviética. Com o seu aparecimento o palco das ameaças potenciais aos EUA alterou-se, como se alteram os termos dessa ameaça. Durante a guerra fria, com a URSS, que sempre foi um anão económico, os temos da disputa eram militares, territoriais e ideológicos. Agora, o confronto não é, pelo menos ainda, sobre territórios nem militar; trata-se de uma disputa nos domínios do comércio e da economia, (e onde a controlo de recursos estratégicos tem predominância). Concomitantemente, as preocupações americanas de segurança viraram-se para o Indo-Pacífico. E, assim, a NATO perdeu naturalmente relevância para os EUA numa competição que é essencialmente comercial e onde novos palcos ganham protagonismo. Esta reorientação das preocupações estratégicas americanas precede, em muito, os tempos de Trump.
Perdida a centralidade militar, sobraria a NATO como corpo da ideia de um Ocidente liberal, democrático, humanista e paladino do direito internacional. Para a administração de Donald Trump, como J.D. Vance tornou claro em Munique e a Estratégia de Segurança Nacional reafirmou, esta Europa, corporizada na União Europeia, não merece a pena ser defendido pois é economicamente fraca, moralmente decadente, politicamente opressora dos seus cidadãos e traidora das raízes cristãs da civilização ocidental. Esta Europa, vista como ‘woke and weak’, é objeto de um profundo desdém por parte da atual administração americana e, como tal, não sendo um aliado a cultivar.
E depois de Donald Trump? A natureza errática da política externa, com a retórica neoimperialista, as proclamações bombásticas, a lógica transacional e a banalização das demonstrações de força, devem tudo a Trump e à sua personalidade. Sem ele estas arestas serão limadas, o tom adoçará e a América voltará a ser mais ‘amigável’. Contudo, mesmo que o estilo mude, a reorientação das suas prioridades estratégicas e a perda de peso da Europa nessas prioridades permanecerão. (Reorientação que é não só legítima como compreensível; o problema é essa transição não estar a ser gerida de forma ordeira.) O que sobrará da NATO com essa reorientação está para ser visto; algo restará, pois, por exemplo, os EUA continuarão a precisar de bases na Europa (e de aliados) para projetarem uma imagem de potência global. Uma coisa parece, contudo, certa: nunca mais os europeus terão uma confiança cega no aliado transatlântico e em particular na força do Artigo 5º da Carta do Atlântico. É este o fim da velha ordem de que Mark Carney falou em Davos. Os contornos práticos dessa nova ordem alternativa, com as ‘potências médias’ equilibrando-se entre os EUA e a China, permanecem nublosos. O que não é nada nubloso é que o tempo necessário para que a Europa Ocidental possa prescindir dos EUA para a sua segurança se mede em décadas e que o processo para lá chegar será de uma dificuldade política extrema.
Professor universitário