Cada grande salto no progresso humano foi impulsionado por ideias. Mas as ideias não surgem no vazio: provêm de pessoas. Isto fez do talento humano um dos recursos mais valiosos para impulsionar a inovação e o crescimento. A IA altera os termos desta equação: em 2023, um sistema de IA passou no exame da Ordem dos Advogados nos EUA; em 2025, a tecnologia ajudou os cientistas a identificar uma possível causa da doença de Alzheimer; em maio, a IA resolveu um problema matemático complexo que intrigava os especialistas há 80 anos; há dias Elon Musk previu que em 5 anos a IA ultrapassará o conjunto da inteligência humana. A questão coloca-se pois: qual o papel reservado ao talento humano?
À medida que os sistemas de IA assumem tarefas cada vez mais complexas, o papel do talento humano fica em risco. Durante muito tempo, valorizámos quem sabia executar bem – escrever relatórios, organizar dados, fazer apresentações, produzir análises, responder a clientes, programar ou desenvolver produtos – ou talentos como capacidade de memorizar grandes volumes de informação, falar várias línguas ou reconhecer padrões complexos. Tudo isto perde relevância à medida que as máquinas superam os humanos nestas áreas. Estima-se que cerca de 40% das competências hoje exigidas terão mudado até ao final da década.
A tentação é concluir que o talento humano está em vias de ser substituído. Mas talvez a pergunta certa seja, que tipo de talento continuará a fazer diferença? Quando todos com a IA puderem obter respostas rápidas, a diferença estará na qualidade das perguntas e na capacidade de filtrar, contextualizar e validar as respostas recebidas. E, em última análise, na capacidade de decidir com base nessa informação e assumir a responsabilidade pelas consequências. Serão igualmente valorizadas competências profundamente humanas, difíceis de codificar e de escalar: empatia, negociação, liderança em contextos de ambiguidade, sentido ético, capacidade de comunicação e julgamento.
Mas os riscos são inegáveis. À cabeça, o risco de atrofia cognitiva. Se delegarmos tudo – escrever, calcular, resumir, argumentar – deixamos gradualmente de o saber fazer bem. E uma sociedade que confia demasiado nas máquinas para pensar por si arrisca-se a perder a capacidade de avaliar aquilo que as máquinas produzem. Há ainda outro risco, talvez mais grave e urgente: a ameaça à formação do talento júnior. Muito trabalho de entrada numa carreira é, na prática, treino disfarçado: se a IA absorve essas tarefas, como se forma a próxima geração de profissionais e decisores seniores? Como se aprende a decidir sem antes ter aprendido a executar?
Ao longo dos tempos o sistema educativo teve um papel central na identificação e desenvolvimento do talento humano. Também será assim nesta nova era. Mas, para tal, o ensino em geral e o universitário em particular têm de mudar. Em primeiro lugar, devem deixar de tratar a IA apenas como uma forma sofisticada de batota. A literacia em IA deve ser uma competência básica ao nível do saber ler, escrever, contar ou usar uma folha de cálculo. Em segundo lugar, é necessário preservar deliberadamente espaços de esforço cognitivo. Se delegarmos tudo nas máquinas, acabaremos por perder a capacidade de exercer curadoria sobre elas. Terceiro, os currículos escolares devem ser alinhados com competências que a IA não substitui facilmente (e muitas vezes chamadas ‘soft’). E, ao contrário do que alguns tecno-entusiastas defendem, é fundamental preservar as universidades como espaços de presença física. Não apenas como locais de transmissão de conhecimento, mas como comunidades onde os jovens aprendem a discutir, a cooperar, a discordar, a liderar, a escutar e a aperfeiçoar a sua humanidade.
No fim, a questão decisiva não será saber se a IA é inteligente. Será saber se continuaremos a formar humanos capazes de o ser.
Professor universitário