O regresso dos desequilíbrios globais

A designação ‘desequilíbrios externos globais’ pode parecer estranha, pois, agregando à escala mundial, a soma dos saldos das balanças correntes de todos os países é necessariamente nula (a menos de erros e omissões).

Os ‘desequilíbrios globais’ - medidos pela soma dos excedentes e défices nas contas externas correntes - têm vindo a aumentar desde 2018, atingindo em 2025 os 1,6% do PIB mundial. Embora ainda longe do pico dos anos 2000 (2,6%), o aumento é preocupante: estes desequilíbrios tendem a alimentar impulsos protecionistas e desembocam muitas vezes em crises financeiras como em 2008. É este o alerta de um recente policy paper do FMI de abril (Understanding Global Imbalances) e também do 4.º Paris Report do CEPR/Bruegel (The New Global Imbalances). O Paris Report chama, ainda, atenção para o facto de a situação atual ter a novidade de a posição externa líquida negativa dos EUA ser muito maior, de o seu ‘privilégio exorbitante’ ter diminuído e de o financiamento do défice depender cada vez mais de fluxos privados e de instituições financeiras não bancárias, o que aumenta o risco de variações abruptas nos preços dos ativos financeiros e de contágio.

Talvez se justifique um esclarecimento. A designação ‘desequilíbrios externos globais’ pode parecer estranha, pois, agregando à escala mundial - pelo menos enquanto não existirem transações comerciais com Marte -, a soma dos saldos das balanças correntes de todos os países é necessariamente nula (a menos de erros e omissões). Contudo, esse zero global pode ser alcançado quando enormes excedentes (na China, Japão e UE) coexistem com enormes défices (nos EUA). É a esta situação que se chama ‘desequilíbrio global’, e estas quatro economias são responsáveis por dois terços do seu valor.

Para muitos no Ocidente, a principal responsável é a China e a sua política industrial agressivamente mercantilista: subsídios às indústrias exportadoras, custos de mão-de-obra artificialmente baixos, consumo interno reprimido e moeda subvalorizada. É certamente esta a visão da administração Trump. Para outros, os principais responsáveis são os EUA, com os seus défices orçamentais maciços e crescentes (a dívida pública vai ultrapassar, pela primeira vez no pós-guerra, os 100% do PIB), a que acresce a crónica deficiência da poupança privada interna.

Os estudos acima referidos recordam um princípio básico: um país tem excedente externo quando poupa mais do que investe, e défice quando investe mais do que poupa. Alterar a conta externa exige, pois, mexer em variáveis domésticas: défices públicos, poupança e investimento. Como esses estudos indicam, as alternativas, muitas vezes vendidas como silver bullets - tarifas, restrições ao comércio e políticas industriais ativas -, têm normalmente menos impacto na balança externa do que prometem. A intuição de que as tarifas, ao encarecerem as importações, melhoram o saldo externo é falaciosa, pois ignora os ajustamentos da taxa de câmbio e dos outros preços relativos, de tal modo que o efeito na conta corrente acaba tipicamente por ser neutro (já para não falar em eventuais retaliações). Quanto à política industrial ativa - subsídios a determinadas indústrias -, ela afeta sobretudo a composição do comércio, mas tem efeitos agregados pequenos e ambíguos na balança corrente, que dependem do seu impacto na produtividade agregada e do modo como é financiada.

Num mundo endividado - em que se estima que a dívida pública global ultrapasse os 100% até ao fim da década -, com desequilíbrios externos enormes e tensões geopolíticas crescentemente agrestes, os riscos de uma correção desordenada como em 2008 já não são ignoráveis. No atual clima político internacional, uma solução coordenada como a do Acordo do Plaza em 1985 é improvável. Prudência deve estar, pois, na ordem do dia e esta exige não esquecer a contabilidade básica e o que realmente determina a balança corrente: as políticas macroeconómicas, a produtividade, a demografia e o funcionamento dos mercados financeiros. Mas é igualmente essencial aumentar a resiliência das economias, o que, no caso da UE, implica completar o mercado único e elevar o potencial de crescimento.