O que se esconde num nome

Com esta estratégia a Nova SBE fez mais pela promoção das língua e cultura pátrias do que se usasse o português como língua de trabalho e comunicação.

(Este artigo é sobre a denominação em inglês da Faculdade de Economia (FE) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Enquanto Diretor da FE entre 2005 e 2015 fui o principal responsável pela adoção em 2007 do nome Nova SBE-School of Business & Economics. Foi a primeira vez que tal foi feito na academia nacional. Muitos outros exemplos se seguiram).

No final de janeiro o novo Reitor da UNL deliberou proibir que as Faculdades usassem exclusivamente as suas designações em inglês. A escolha do uso de uma designação em inglês – como Nova SBE e não Faculdade de Economia – não foi uma questão de novo-riquismo ou um capricho parolo, mas, antes, uma decisão estratégica. Conhecer um pouco da história da SBE ajuda a perceber porquê.

Desde a sua fundação em 1978 a FE teve a ambição de ter uma pegada internacional. Como nos domínios da Economia e da Gestão o ‘internacional’ relevante é anglo-saxónico (e não francófono ou lusófono), tomou como referência essas latitudes. Começou, paulatinamente, por adotar as melhores práticas de gestão académica desse universo (tantas vezes no limite dos quadros legais vigentes) – licenciatura de quatro anos. sistema de créditos, recusa do recrutamento endogâmico ou criação de um MBA – e por patrocinar o doutoramento de jovens assistentes em universidades dos EUA ou RU. Com os anos, o conceito de ser ‘internacional’ densificou-se. O teste do limão passou a ser a capacidade de atrair alunos, professores e investigadores de todo o mundo. Ou seja, estar no ‘radar’ do mercado internacional de talento. Por isso a Nova SBE (então ainda FE) começou, na viragem do século, a ensinar em inglês, a desenvolver um forte programa de intercâmbios e a recrutar docentes no mercado internacional.

Os acordos de Bolonha deram um novo e decisivo impulso a esta estratégia. Os acordos foram como que o euro do ensino superior: do mesmo modo que a moeda única facilitava as transações, Bolonha facilitava a transferência de graus e a mobilidade de estudantes. Conjugados com Schengen, criaram um mercado único para o ensino superior de escala europeia onde o principal ‘produto transacionado’ eram os mestrados. O risco para as universidades portuguesa era grande, mas a oportunidade ainda maior. E quem melhor podia aproveitar essas oportunidades eram escolas com vocação internacional, designadamente com o ensino generalizado em inglês e possuidoras de ‘selos de qualidade’ – as acreditações – por organismos internacionais. A FE encarou o desafio de braços abertos e no ano letivo de 2006/2007 já operava integralmente no novo quadro. Foi então, para construir uma marca que melhor lhe permitisse competir nesse mercado aberto e muito agressivo, para mais eficazmente atrair para Portugal os melhores jovens talentos, que adotou a designação em inglês – Nova SBE. E esta estratégia foi bem-sucedida: hoje a SBE tem 50% de alunos internacionais provenientes de 104 países e, dos 130 professores de carreira, 56% são internacionais. Paradoxalmente, com esta estratégia a Nova SBE fez mais pela promoção das língua e cultura pátrias do que se usasse o português como língua de trabalho e comunicação. Os estudantes e professores que consegue atrair aprendem a língua e criam laços afetivos com o país que perduram para toda a vida tornando-se, para sempre, embaixadores de Portugal. E, o que é importante, tudo isto foi alcançado sem prejudicar o acesso à SBE de qualquer estudante português.

Apesar de recém-empossado, não saberá o Reitor tudo isto? Porquê então, face a todos os desafios que as universidades defrontam, ter priorizado encetar, contra a vontade veemente manifestada pela maioria das Faculdades, esta guerra de denominações? Apenas posso especular. A UNL caracteriza-se historicamente por uma estrutura ‘confederal’ em que as suas unidades têm grande poder e autonomia. Esta estrutura permitiu acomodar diferentes estratégias e velocidades de desenvolvimento, sem pôr em causa a unidade da Universidade. O Reitor nunca dirigiu uma faculdade e, por isso, valorizará menos a autonomia destas; ao invés, parece querer reforçar o poder relativo do centro universitário (isto é, o seu poder). Nada de bom sairá daqui para a Universidade, só, talvez, o reforço das forças centrífugas.

Professor universitário

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