terça-feira, 18 ago. 2026

O futuro nas folhas de chá: a bonança da IA

Conseguir elevar de forma duradoura a taxa de crescimento, seria um resultado notável e algo que as economias avançadas não alcançam de forma sustentada desde a Revolução Industrial.

A IA tem um potencial enorme para aumentar a produtividade nas próximas e não muito longínquas décadas. A grande incógnita é a magnitude. Estudos do tempo dedicado ao desempenho de atividades específicas, citados no mais recente relatório anual do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), indicam poupanças de tempo entre os 20 e 50%, sobretudo nas tarefas mais básicas em cada atividade. Os ganhos parecem maiores na programação, intermédios na consultoria e na redação/escrita, e menores no apoio ao cliente. Já os impactos estimados no produto agregado são mais prudentes: apontam para um aumento da taxa de crescimento anual claramente inferior a 1 ponto percentual. 

O mesmo relatório simula vários cenários para o impacto da IA no produto. Tecnologias como a máquina a vapor, a eletricidade ou as tecnologias de informação aumentaram a produtividade porque deram melhores ferramentas aos trabalhadores: complementaram o trabalho humano. A IA pode ser diferente. Combinada com a robótica e com avanços no armazenamento de energia, poderá criar ciclos de inovação que se alimentam a si próprios: cada avanço acelera o seguinte. Num cenário extremo, as máquinas passariam a melhorar-se autonomamente. Uma das grandes limitações ao crescimento de longo prazo – a capacidade humana de inovar e de adotar novas tecnologias – poderia, em parte, desaparecer. 

Nesse mundo, as economias mais avançadas deixariam de crescer a uma taxa relativamente estável em torno dos 2%, como tem acontecido historicamente, e passariam para uma trajetória em que a própria taxa de crescimento aumenta ao longo do tempo. O produto poderia acelerar fortemente nas próximas décadas (para cerca dos 6% no cenário do BIS). Mas o outro lado da moeda seria inquietante: se as ‘máquinas inteligentes’ substituíssem grande parte do trabalho humano, a fatia dos salários no rendimento nacional poderia cair muito. Como Martin Wolf observou recentemente no Financial Times, tal cenário poderia assemelhar-se a um regresso a uma sociedade quase feudal: uma pequena minoria controlaria os ativos essenciais – agora os sistemas de IA – enquanto a maioria ficaria dependente deles.

Este cenário de abundância quase ilimitada, mas socialmente distópico, é possível em teoria. Na prática, parece pouco provável.

O relatório do BIS aponta dois travões importantes. O primeiro vem ‘do lado da oferta’. Para que o crescimento dispare, o ‘capital inteligente’ teria de substituir em larga escala outros fatores de produção, como o trabalho e os recursos naturais. Mas, sempre que a IA depender de recursos escassos – energia, matérias-primas, infraestruturas, dados, ou, mesmo, capacidade de gestão do seu impacto social – o crescimento encontrará limites. O segundo travão vem da ‘procura’. Se a IA substituir massivamente o trabalho e deslocar rendimento das famílias para as empresas e para os proprietários do capital, o consumo privado poderá enfraquecer. Nesse caso, surge uma pergunta simples: para quem continuar a produzir e a inovar? Quando o retorno do investimento em inovação começar a cair, o ritmo da própria inovação tenderá a abrandar.

Assim, os cenários continuam rodeados de enorme incerteza. Os tecno-otimistas imaginam um mundo de abundância quase sem limites. É a visão de Elon Musk na sua recente entrevista ao The Economist. Mas é mais provável que a realidade seja menos espetacular: ganhos relevantes de produtividade, sim, mas condicionados por complementaridades, escassez de recursos e limites sociais e políticos. Ainda assim, não seria pouco. Conseguir elevar de forma duradoura a taxa de crescimento, mesmo que apenas por algumas modestas décimas acima da tendência histórica, seria um resultado notável – e algo que as economias avançadas não alcançam de forma sustentada desde a Revolução Industrial.

Professor universitário