segunda-feira, 07 set. 2026

Capital Público*

Depois de ter atingido um pico em 2013, ano em que representou 77,2% do PIB, o capital decresceu para 53,8% do produto em 2024 – valor idêntico ao de há 20 anos

Urgências médicas sobrelotadas, falhas no abastecimento de água no concelho de Almada, investimentos para revitalização de Parque Natural da Serra da Estrela na sequência de incêndios há muito prometidos e nunca cumpridos, travessias do Tejo congestionadas e promessas adiadas de novas alternativas, prisões degradadas e com condições precárias de segurança, cumprimento de apenas 5% do plano de inauguração de Unidades Locais de Saúde (modelo C), e uma ferrovia que tarda em construir-se ou modernizar-se. Tudo isto são manifestações de uma mesma realidade: o capital público tem-se deteriorado em Portugal devido a um investimento insuficiente. No fundo, temos uma casa que não conservamos nem expandimos de modo a acomodar o número crescente de pessoas que nela habitam.

Depois de ter atingido um pico em 2013, ano em que representou 77,2% do PIB, o capital público decresceu para 53,8% do produto em 2024 – um valor idêntico ao de há 20 anos, quando a economia era 20% menor e a população pelo menos 8% inferior. Por detrás desta evolução está um investimento público insuficiente para cobrir a depreciação do capital, e que atingiu o seu mínimo histórico em 2016 com uns meros 1,55% do Produto. Por comparação, o valor médio nas economias avançadas neste período situava-se no 3,43%. A partir de 2024 houve uma forte retoma do investimento, projetando-se um rácio de 4,3% em 2026, em larga medida fruto do PRR. Esta retoma será, contudo, sol de pouca dura e insuficiente para compensar anos e anos de baixo investimento: em 2027, o capital público estará ainda significativamente abaixo do valor de 2013.

Porque é que isto é relevante? Desde logo, porque os bens e serviços públicos afetam diretamente o bem-estar das populações – que o digam as grávidas que deambulam entre urgências de obstetrícia. Depois, porque a qualidade das estradas, dos portos ou redes de energia, água e digital afetam a própria produção privada. Faria e Castro estima que se o capital público se tivesse mantido ao nível de 2013 – um cenário conservador e certamente subótimo face ao crescimento populacional –, o Rendimento português em 2026 seria 1,4% superior ou seja cerca de 4,5 mil milhões de euros.

Terá, ainda assim, o nível de investimento público sido o ‘adequado’? Teria havido alternativa? Entre 2013 e 2024 a taxa de juro média da dívida pública foi próxima dos 3%. Em contrapartida, por cada 1000 euros de investimento público líquido nesse período estimo que o produto real poderia aumentar entre 52 e 104 euros, ou seja, uma taxa de rendibilidade entre 5,2 e 10,4%. Consequentemente, teria feito todo o sentido económico contrair dívida para financiar mais investimento público produtivo, sem que tal pusesse em causa a sustentabilidade das finanças públicas: uma prova prima-facie do subinvestimento.

Estes cálculos grosseiros são corroborados por estimativas que indicam que, para o conjunto das economias classificadas pelo FMI como avançadas no período 2014-2024, o nível de investimento público desejável para maximizar o crescimento seria de 4,8% do PIB – e ainda maior se admitirmos ineficiências e desperdícios. Comparando, nesse período, a diferença média entre o investimento público realizado e o ‘ótimo’ nas economias avançadas, países como o Japão e a Noruega surgem como exemplos de ‘excesso’ de investimento, enquanto Portugal registou o terceiro maior nível de subinvestimento.

A principal conclusão a retirar de tantos números é quão falaciosa e perniciosa é a chamada política das ‘contas certas’ quando, por calculismo político, o equilíbrio é conseguido à custa do investimento público. A chamada ‘regra de ouro das finanças públicas’ não preconiza ‘contas certas’, mas, antes, que se deve emitir dívida apenas para financiar investimento público gerador de crescimento e de impostos futuros.

Portugal devê-lo-ia ter feito.

* Este artigo baseia-se nos resultados apresentados em dois estudos recentes: The Erosion of Public Capital in Portugal, Miguel Faria-e-Castro, FRB St. Louis, agosto 2026; Revisiting Public Capital Need, S. Herrera, C. Hurlin e H. Isaka, Policy Research Working Paper 11272, Economic Policy Global Department – World Bank Group, dezembro 2025.