A revolução da Inteligência Artificial está aqui. Desde o lançamento em 2022 do Chat GPT que as sua ondas de choque se sentem nos mais variados aspetos da sociedade. E também nas universidades. E, como para o resto da sociedade, também para elas existem diferentes perspetivas sobre o ritmo e natureza do impacto e das adaptações requeridas.
Genericamente, é possível identificar duas posições polares, que em Portugal têm tido defensores com algum protagonismo. De um lado, aqueles que vêm a revolução digital e a IA generativa em particular como pondo em causa de forma fundamental o modelo de existência e o papel da Universidade na sociedade. Caricaturando, a IA estaria para a Universidade (e para os modelos tradicionais de formação) como o célebre asteroide esteve para a extinção dos dinossauros. A Universidade perderá o monopólio como centro inquestionável de geração e transmissão de conhecimento; a IA retirará ao ‘mestre’ o seu poder de agência. Paralelamente, à medida que as tecnologias evoluem, o potencial para aprendizagens personalizadas e adaptativas cresce e, com elas, reduz-se o atrativo das soluções assentes na massificação e padronização.
Noutro extremo estão aqueles que acham que, acima de tudo, é necessário proteger os valores académicos tradicionais e que para tal pode ser mesmo necessário proibir a utilização nas universidades das ferramentas de IA generativa. Na base desta posição ‘ludita’ está a preocupação com a erosão de padrões de exigência académica (no ensino, mas também na investigação) e com a possibilidades de fraude na avaliação de conhecimentos. Com a generalização do uso da IA generativa, receiam, as instituições passarão a formar pessoas apenas capazes de fazer prompts e não capazes de pensar por si, e tornar-se-á impossível distinguir a aprendizagem efetiva do mero uso da IA.
Ambas as posições me parecem erradas. Aqueles mais deslumbrados com o admirável mundo novo da aprendizagem individual, autónoma, customizada e dirigida por algoritmos, sem papel para a Universidade, subestimam o valor das competências que apenas podem ser desenvolvidas através da interação humana designadamente através da discussão, do debate e da reflexão crítica. Estas competências são frequentemente designadas por ‘soft’ (se bem que ‘humanas’ fosse, talvez mais adequado) e incluem o pensamento crítico, a criatividade, a inteligência emocional e a adaptabilidade. Sem elas a própria utilização de ferramentas de IA será mais acrítica quantos aos seus próprios limites e, portanto, mais pobre. Se as universidades de hoje, com as suas atuais práticas pedagógicas, as promovem é outra questão. O ponto que desejo fazer é que sem elas, sem espaços e oportunidades para tais interações ocorrerem e sem formadores que as guiem formadores, essas competências tipicamente humanas e irreplicáveis estiolarão. E onde, fora do contexto da Universidade, poderá ser assegurada a proteção da privacidade dos estudantes e a equidade do acesso à IA?
Muitas das preocupações dos céticos mais radicais com a integridade académica são certeiras. Contudo, a solução não é fechar as portas, mas antes ajustar práticas e procedimentos para lidar com esses desafios. Num mundo em que a IA está e estará cada vez mais à nossa volta, tentar isolar a universidade é como querer parar o vento com as mãos. E é não só fútil como prejudicial, pois recusa aproveitar uma tecnologia com uma enorme potencial para facilitar os processos de aprendizagem, potenciar a investigação e tornar mais eficazes os processos administrativos. Para mais, o mercado de trabalho exigirá, cada vez mais, que os graduados tenham pelo menos um conhecimento básico e familiaridade com as ferramentas de IA. Se a Universidade fechar as portas a esta realidade está a falhar aos seus estudantes e perde a oportunidade de, através de uma abordagem estruturada, formar os utilizadores conscientes da IA que a sociedade precisa.
Estas duas visões extremas ilustram bem com a Universidade se encontra perante escolhas decisivas quanto ao equilíbrio entre a utilização de todo o poder da IA e a salvaguarda dos valores académicos que a definem. Desse equilíbrio dependerá o seu futuro como instituição com relevância social. Mas isso será objeto de um próximo artigo.
Professor universitário