quarta-feira, 15 jul. 2026

Sindicalismo, responsabilidade e combate aos populismos

O sindicalismo, sobretudo na saúde, deve significar responsabilidade social: estar ao lado dos profissionais, estar ao lado dos doentes e ajudar a resolver problemas, em vez de os explorar. 

Quando há negociações, há sempre duas maneiras de atuar: procurar soluções que tornem um acordo possível ou, pelo contrário, fazer tudo para o inviabilizar, usando os médicos como arma de arremesso no combate político-partidário.

O SIM é um sindicato independente. Não está ligado a partidos, não responde a centrais sindicais nem a governos. Essa independência vê se na prática, nos muitos acordos assinados ao longo dos anos com Governos da República, Regiões Autónomas e várias instituições públicas, privadas e do setor social.

Não é função dos sindicatos pedir a demissão de governos ou de ministros. Esse papel cabe aos partidos e, em última instância, aos cidadãos nas eleições. Quando um sindicato entra nesse terreno, está a ultrapassar a sua missão e a desrespeitar a vontade dos portugueses expressa nas urnas. Pode garantir alguns minutos de protagonismo nos telejornais e agradar a certos egos, mas não resolve nenhum problema concreto dos médicos nem do Serviço Nacional de Saúde. E, pior, alimenta o crescimento dos populismos, tanto à esquerda como à direita.

Mesmo em contextos difíceis, tem sido possível alcançar acordos importantes. O SIM, como maior sindicato médico nacional, tem procurado sempre defender os médicos com seriedade, resistindo à desinformação, ao ruído mediático, às notícias falsas e às acusações gratuitas.

Recusamos a via da radicalização, das promessas impossíveis e das posições de “tudo ou nada”. Esse tipo de postura pode ser politicamente rentável para alguns, mas não melhora a vida de quem trabalha no SNS nem de quem precisa de cuidados de saúde. Num momento em que o Serviço Nacional de Saúde vive uma crise séria, que afeta diretamente o acesso dos portugueses aos cuidados, é preciso responsabilidade: firmeza, sim, mas também capacidade de negociar e de construir soluções.

É verdade que muitas das dificuldades atuais poderiam ter sido evitadas com decisões mais acertadas no passado. Mas hoje o que conta é agir com sentido prático. Todos sabemos que os médicos mereciam aumentos salariais mais elevados. Ainda assim, foi possível, tendo em conta os limites do país, garantir melhorias reais nos salários e nas condições de trabalho.

Convém lembrar que os aumentos remuneratórios alcançados abrangem todos os médicos, incluindo aqueles que, em público, criticaram o acordo. Outras melhorias, infelizmente, não chegaram a todos por decisão de quem optou por não aderir ao último acordo negociado.

Foi conseguido um aumento intercalar com o anterior Governo e, com o atual, foi possível consolidar um percurso de valorização progressiva. O acordo permitiu também corrigir injustiças antigas, reduzindo diferenças entre regimes e garantindo que nenhum médico fica de fora das progressões remuneratórias, valorizando igualmente o trabalho dos médicos internos, nomeadamente nos serviços de urgência.

Houve ainda avanços importantes nas condições de trabalho: mais apoio à parentalidade, diminuição da carga horária e do tempo em urgência, possibilidade de teletrabalho em certas funções, melhor organização de férias e folgas, e mais tempo dedicado a consultas e atividade programada. São medidas que, no dia a dia, fazem diferença na vida dos profissionais e na qualidade dos cuidados prestados.

Ser claro também é uma forma de respeito: estes acordos não resolvem tudo. Falta ainda muito para garantir a valorização plena da carreira médica e para oferecer condições de trabalho verdadeiramente atrativas no SNS.

O foco deve ser defender o SNS, defender os médicos e, acima de tudo, defender os doentes.

Não é com gritaria, nem com conferências de imprensa exaltadas, que se trava a degradação do sistema, mas com soluções concretas, consistentes e exequíveis.

Portugal forma médicos em número significativo. O problema não é a falta de médicos no país, é a dificuldade em mantê-los no Serviço Nacional de Saúde. Para isso, é essencial criar condições que os motivem a ficar e que levem os mais jovens a escolher o SNS como primeira opção, e não como última alternativa.

O sindicalismo, sobretudo na saúde, deve significar responsabilidade social: estar ao lado dos profissionais, estar ao lado dos doentes e ajudar a resolver problemas, em vez de os explorar. Não pode alinhar na lógica do ‘quanto pior, melhor’, que apenas destrói confiança e abre espaço aos populismos, sejam de que lado forem.

Médico de Família