segunda-feira, 14 set. 2026

América Latina: ventos democráticos

A América Latina volta a ser disputada por uma ideia essencial: a democracia não se reduz ao ato de votar. É também a liberdade de escolher, criticar, alternar governos e exigir responsabilidades sem medo.

A América Latina volta a ser disputada por uma ideia essencial: a democracia não se reduz ao ato de votar. É também a liberdade de escolher, criticar, alternar governos e exigir responsabilidades sem medo. Há sinais de renovação política na Argentina, no Chile, em El Salvador entre outros.

As recentes transições eleitorais revelam alguns traços comuns: prioridade à segurança, combate ao narcotráfico, defesa da propriedade privada, apoio às vítimas da criminalidade, reforço das forças de segurança, punição mais firme dos criminosos e preocupação com a inflação, a despesa pública e o endividamento externo. Estas escolhas podem ser discutidas e criticadas, como é próprio de uma democracia. Mas não devem ser automaticamente reduzidas aos rótulos de ‘trumpismo’, ‘extrema-direita’ ou ‘fascismo’, frequentemente usados para desqualificar, sem debate sério, opções eleitorais legítimas.

A Argentina de Javier Milei representa a reação de uma sociedade exausta da inflação, dos privilégios e da incapacidade política. A eleição de um outsider liberal demonstrou que os cidadãos podem penalizar os partidos tradicionais. A inflação argentina atingiu 211,4% em 2023, tendo recuado no primeiro semente de 2026 para inflação acumulada de 16,8%.

O governo de Nayib Bukele, em El Salvador, obteve resultados expressivos na segurança pública e na recuperação da confiança económica. O combate aos gangues reduziu fortemente os homicídios e contribuiu para o crescimento do turismo, do investimento e da atividade económica.

No Chile, o novo Governo de José Antonio Kast avançou em iniciativas destinadas a incentivar o investimento e a reforçar a segurança. Apresentou medidas contra o crime organizado, propostas de simplificação tributária e alterações fiscais dirigidas à competitividade económica e à criação de emprego. Será o tempo, e não apenas os anúncios, a determinar se estas reformas produzem resultados duradouros sem comprometer a coesão social e a estabilidade institucional.

Na Colômbia, a governação de Gustavo Petro foi marcada por sérias dificuldades no combate à violência armada, ao narcotráfico e à perda de controlo territorial do Estado em várias regiões. Petro foi antigo membro do grupo terrorista M-19. O fracasso parcial da estratégia de ‘Paz Total’, acompanhado pelo agravamento da insegurança e pelo aumento de sequestros e homicídios, criou condições para a vitória eleitoral de Abelardo de la Espriella. O novo Presidente promete restabelecer segurança, justiça e presença efetiva do Estado no território colombiano.

Venezuela, Cuba e Nicarágua representam o extremo oposto de qualquer esperança democrática. Em Cuba persistem a ausência de democracia representativa, de pluralismo partidário e de independência judicial. Na Nicarágua aprofunda-se a concentração do poder executivo, a repressão da oposição, o enfraquecimento das liberdades cívicas a proibição das eleições.

Também o Brasil merece uma análise. A corrupção continua a ser um problema grave e persistente, alimentado por redes de financiamento político, opacidade, clientelismo e impunidade seletiva onde o poder judicial toma as rédeas e na prática ultrapassa e branqueia o poder Executivo. Os escândalos do INSS (envolvendo proeminentes membros do governo e o filho do Presidente) o Banco Master são só dois exemplos dos dois pesos e duas medidas do poder. Judicial

Por fim, importa olhar criticamente para redes internacionais como a Mobilização Progressista Global, promovida por Pedro Sánchez - também ele a braços com graves situações de corrupção.

Esta plataforma tende a relativizar falhas, abusos e práticas autoritárias de governos latino-americanos que se apresentam como progressistas, incluindo os casos da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua.

Os políticos, os governos ocidentais e o jornalismo devem abandonar tanto a complacência perante líderes carismáticos como a caricatura ideológica da realidade latino-americana. A América Latina não precisa de tutelas nem de admiradores acríticos. Precisa de imprensa livre, cidadãos exigentes e instituições que sobrevivam aos governos.

Médico de Família