O mundo está feio. Esta, que é a nossa casa, está a transformar-se numa zona de recreio onde param uns meninos maus que estragam a vida aos outros. E os vigilantes, impotentes, parecem nada poder fazer. Aqueles em que sustentámos durante tantos anos o nosso equilíbrio e a nossa segurança, instituições como a NATO, a ONU e a União Europeia, parecem impotentes perante alguns líderes mundiais que deixam de pensar no poder como um espaço com regras e delimitações.
Por si só, a retórica da guerra, que se tem multiplicado em grande parte dos discursos políticos, já seria motivo de preocupação. Mas a linha vermelha está a ser ultrapassada e a guerra, que destrói e mata (convém lembrar), torna-se espuma dos dias. É difícil perceber a atitude de quem ocupa cargos de responsabilidade mundial ao assumir a iminência de uma guerra. O iminente não pode ser iminente, muito menos eminente...tem de ser o início de um processo de negação dessa guerra ou conflito. Deve ser um sinal de alerta. Em qualquer situação, a fuga para o abismo, que é um suicídio, deve ser evitada com todas as forças. É estranho ouvir dizer que temos de estar preparados para a guerra, quando este tipo de conflito é uma variável com capacidade de domínio, ao contrário de outras forças como as da natureza.
Vem aí uma nova ordem mundial que vai exigir muito de cada um de nós. Como será? Que moldes vão imperar? Para onde é necessário olhar? Os alicerces vão ter sustento para aguentar cada um de nós? A única resposta conhecida é que as coisas vão mudar. Exige-se adaptação a uma nova forma de vida, em que os pilares conhecidos serão destruídos e outros, que poderão ser mais frágeis, irão sustentar a nossa existência.
A caminhada do humano tem sido feita por grandes avanços. O aumento da esperança de vida, um dos principais indicadores do desenvolvimento humano, apesar das diferenças de região para região, reflete no seu crescimento o quanto temos evoluído como seres dominantes e dotados de capacidades únicas. O cenário de uma nova ordem mundial assente no conflito e na guerra, não se adequa ao tanto já conquistado pela humanidade, que até já cria inteligência e a massifica através da IA generativa.
Com outras características, a massificação da utilização da AI no quotidiano, e os avanços que daí advêm num futuro próximo, é o outro desafio em que fermenta a necessidade de um novo humano. É verdade que já convivemos com a inteligência artificial há alguns anos. Mas o uso consciente da sua utilização só começou a ser percebido com o lançamento do ChatGPT, em 2022. Os próximos anos, e não nos referimos a décadas, mas sim a meia dúzia de anos, vão ser inimagináveis à luz dos dias de hoje. O 6G vai potenciar a tecnologia de IA para patamares que identificamos com essa palavra difícil de se representar: inimaginável. Nem mesmo a nossa imaginação consegue criar. É uma revolução que vem aí. Não faltará muito tempo para que possamos solicitar através do nosso smartphone o código para fazermos a impressão da pizza que vamos comer no jantar, em vez de a solicitarmos num restaurante com entregas. Que exista energia para o uso de tanta tecnologia!
Estamos no início de uma revolução e todas elas são uma transformação profunda. No entanto, nem todas as transformações são revoluções. À revolução exige-se um ponto sem retorno e que, no contexto da IA, se consegue pela alteração de três elementos: o entendimento do planeta, como se estrutura e organiza o mundo e a noção de espaço e tempo. Na história da humanidade foram escassos os acontecimentos capazes de alterar, ao mesmo tempo, os elementos atrás descritos.
Os dois desafios que aqui destacamos justificam o anúncio apresentado no título desta crónica. É um novo contexto de existência que se abre ao humano. Não é a adaptação a uma nova forma de fazer algo ou a um contexto que evolui ao longo dos tempos. É uma nova forma de viver, com novos paradigmas que irão alterar a noção da existência, do que nos rodeia, devido a pontos referenciais totalmente novos. A reinterpretação já não será suficiente, porque a capacidade do humano enfrentar os novos tempos terá de ser feita com base numa nova interpretação, totalmente virgem de passado. É uma nova oportunidade que Deus nos dá.
Professor Universitário
Diretor do Mestrado em Comunicação nas Organizações – Escola de Comunicação, Arquitetura, Artes e Tecnologias da Informação da Universidade Lusófona -Centro Universitário de Lisboa