A democracia é um sistema que processa institucionalmente o descontentamento dos cidadãos com o governo no poder. O descontentamento, por vezes, tem razão de ser, outras vezes, nem tanto.
Alguém que votou em determinado candidato e está insatisfeito pode em próxima eleição votar de forma diferente e contribuir para que esse candidato abandone o poder.
Votar não é assim tanto um poder despiciendo para a mudança.
A alternância de poder é um valor essencial da democracia, em que os seus eleitores fazem uma análise dos sucessos e fracassos do governo.
Na nossa democracia, a alternância de poder tem-se dado entre o PS e PSD. O descontentamento e o cansaço do PS têm levado o PSD ao poder e vice-versa e assim por diante.
Se houver mais de dois partidos, o apoio aos partidos menores muitas vezes reflecte o grau de insatisfação com os partidos maiores.
Em Portugal, o descontentamento com o PS não se traduziu no aumento de votação nos partidos à sua esquerda. O BE e o PCP estão com tendência para a irrelevância. O único que se está a aguentar é o Livre, que é uma versão actualizada do BE onde Rui Tavares já militou.
À direita do PSD está o Chega e a IL com crescimento significativo, muito mais o Chega que a IL, o Cotrim Figueiredo deu agora uma ajudinha à IL.
Sente-se que os partidos existentes, que estiveram muito tempo no poder, há uma crescente perda de confiança e os cidadãos perderam definitivamente a fé. Mesmo com renovação na liderança e rostos novos já não mantêm a capacidade de inspirar e arrebatar público. O PSD e o PS têm vindo a diminuir o seu número de eleitores, para não falar, do seu número de militantes.
O que tem acontecido é que as pessoas se refugiam nos novos partidos. Vamos ver se os novos partidos conseguem suplantar os tradicionais. À esquerda o Livre dá sinais disso, à direita é evidente o crescimento do Chega e a IL mantém-se.
Uma característica marcante de nossa política é a incapacidade dos partidos tradicionais de gerir adequadamente o descontentamento popular. Houve um momento em que parecia que os novos partidos alternativos de esquerda beneficiariam da crise de representação política. Todavia são os partidos de direita que estão a capitalizar o descontentamento.
A erosão dos partidos tradicionais aconteceu em Itália culminado com o actual governo de Giorgia Meloni. Em França foi pelo mesmo caminho em que Emmanuel Macron que arrasou o seu antigo partido – Partido Socialista.
Vamos ver se Luís Montenegro não fracassa. Se fracassar o que farão os portugueses? Votarão PS ou vão-se inclinar para o Chega?
A preocupação actual de muitos portugueses é se o Chega respeitará as regras democráticas quando chegar ao poder? Veja-se a união de todos, contra André Ventura nas presidenciais.
Outra questão preocupante é o que acontecerá se os novos partidos de direita não conseguirem reduzir a insatisfação pública com a política?
Fundador do Clube dos Pensadores