quinta-feira, 16 abr. 2026

Um vazio de “passagem”

Lembrado pelos cristãos, o vazio de um túmulo é a convicção na ‘passagem’ da vida implacavelmente finita à vida libertada, antecipada em relações redimidas que tonificam a poética da procura.

Os cristãos enquadram o sentido da ‘passagem’ – Páscoa – na inevitabilidade da própria vida. É necessariamente um caminho de interrogações, ritmado pela fé na ‘vida eterna’. Este mais além, pelo qual se deposita, ou devia depositar, todo um empenho ético no presente, tem nas narrativas bíblicas uma identidade, uma ‘pessoa’ que, apresentado como Deus feito Homem, rasga o ceticismo com uma nova expectativa: a redenção é maior do que a morte. O drama impacta a razão e a emoção, molda histórias individuais e construções solidárias. 

Aquilo a que as primeiras comunidades cristãs, na leitura de uma profecia, chamaram ‘ressurreição’, conta-se também no espantoso diálogo do episódio bíblico de Emaús, como narrativa de uma escuta que transforma e devolve a confiança aos seguidores de Jesus de Nazaré, tomados pelo paradigma de um ‘amor’ incondicional, partilhado. Mas, na verdade, tudo começa num túmulo vazio, com descrença disfarçada de dúvida. Um vazio que se impõe. E são mulheres as primeiras testemunhas desta provocação: «porque procuram o vivo entre os mortos?» (Lc 24). 

Os textos evangélicos trazem um vazio com perguntas, uma paragem para solicitar as essências vitais. Este vazio não é um nada, é a condição de ser. Estamos no domínio da inquietação, da ‘passagem’ de um tempo velho para um tempo novo, ou, se quisermos, de uma mudança no tempo da compreensão. Aquele que veio permanece, sendo com quem acredita.

Em múltiplas latitudes religiosas, este vazio solta louvores à plenitude. Já se construíram muitas teses sobre um túmulo vazio, contado e recontado, restaurando ciclicamente aleluias e compassos que juntam famílias e comunidades na vivência relacional da fé. Se as religiões nascidas no extremo oriente apontam, através da metamorfose de símbolos e conceitos, para uma transcendência do vazio, os monoteísmos desenvolveram, defende o teólogo Schillibeeckx, uma transcendência «em superabundância» que «pode ser atingida pela razão humana». Já o escritor Miguel Real entende que a pessoa religiosa pode realizar-se apenas «contemplando ou ‘experimentando’  [sensibilidade] o seu próprio vazio». O ponto de partida é mesmo: um vazio e a oportunidade para procurar/encontrar um sentido. O devir deste vazio atravessa as literaturas do ‘sagrado’, o romance, a ficção, as ciências. Jonathan e Christopher Nolan desenvolveram no filme Interstellar – baseado na teoria dos buracos negros e dos universos paralelos – um diálogo entre dois personagens em busca de salvação para a humanidade, que exalta a expectativa gerada por um vazio. Acreditando que a pessoa que ama está viva, algures no espaço, apesar de a razão dizer o contrário, a astronauta Amelia Brand, interpretada pela atriz Anne Hathaway, diz que «o amor não se inventa, é observável e poderoso». Joseph Cooper, cético astronauta interpretado por Matthew McConaughey, discorda, alega que o amor se limita a ter «utilidade social» e é reflexo de «elos sociais, como os filhos». Mas «qual é a utilidade social do amor quando amamos pessoas que já morreram?», contrapõe ela, sugerindo que o amor pode ser «a evidência» de algo cujo «significado ainda não podemos entender», capaz de “transcender as dimensões do tempo e do espaço”. Como protagonistas de uma parábola, Amelia e Joseph representam o desconforto de uma grande pergunta: como (sobre)viver com o vazio sem sentido? 

Lembrado pelos cristãos, o vazio de um túmulo é a convicção na ‘passagem’ da vida implacavelmente finita à vida libertada, antecipada em relações redimidas que tonificam a poética da procura.