sexta-feira, 12 jun. 2026

Um difícil equilíbrio 

Em Portugal, a tensão em volta de uma nova lei laboral expõe a necessidade de reforçar o diálogo social, de ampliar espaços de confiança, eventualmente menos formais, mas inevitavelmente no campo da ação política.

Nem tudo é política». A frase do patriarca de Lisboa, dita numa conferência de imprensa em 12 de maio, em Fátima, a antecipar a peregrinação internacional, não está isenta de possíveis equívocos. Pronunciando-se sobre a instrumentalização da religião cristã para tentar legitimar a guerra e sobre a tensão entre a Administração Trump e o Papa Leão XIV, Rui Valério alegou que, neste «contencioso», há uma «tentativa de afunilar toda a realidade» apenas «à vertente política», quando «há mais vida para além da política». O patriarca não disse, nem podia dizer, que a religião nada tem a ver com a política ou que há alternativa ao exercício político no que a este compete. Aliás, se algumas dimensões da vida social têm de se «libertar das amarras da política», defendeu Rui Valério, verificamos que a experiência religiosa – na construção dogmática, nos edifícios doutrinários, na narrativa dos crentes – tem inequívocas implicações políticas. Ao desenhar um quadro ético, com consequências comportamentais, a religião cristã, particularmente a Igreja católica, não se limita a ser espetadora do exercício político, ela pretende ser um alicerce moral, uma intérprete política no tempo. «A política é a forma mais alta de caridade», dizia o Papa Francisco.

Não propondo um programa partidário ou modelos concretos, a Doutrina Social da Igreja enquadra os princípios e propósitos de uma ação política transformadora, seja numa perspetiva macro, seja nas opções individuais. A partir da encíclica Rerum Novarum (1891), com o Papa Leão XIII a responder às perplexidades da revolução industrial e aos, então, novos problemas no mundo do trabalho, a Igreja assumiu-se como protagonista na defesa da dignidade do trabalhador e do trabalho. Os posteriores pontificados foram atualizando o pensamento social-cristão. Depois de Francisco, ativo na denúncia da ganância, de uma «economia que mata», Leão XIV, como prometera, contribui com uma nova encíclica na era da IA, da robotização, da polarização, da imprevisibilidade nas economias que têm o lucro ou a eficácia produtiva como prioridade, remetendo para segundo plano a salvaguarda da dignidade no trabalho.

Em Portugal, a tensão em volta de uma nova lei laboral expõe a necessidade de reforçar o diálogo social, de ampliar espaços de confiança, eventualmente menos formais, mas inevitavelmente no campo da ação política.

Embora a Igreja se mantenha institucionalmente à margem deste debate, o patriarca de Lisboa não fugiu às perguntas dos jornalistas. Valério não compreende as diferenças salariais entre Portugal e outros países da Europa, quando «o nível de vida é semelhante», lembra a «crise no horizonte» e sugere «um consenso mínimo» sobre «os objetivos da classe trabalhadora e da economia nacional», dando «melhores condições para os trabalhadores» e preparando o país «para a concorrência internacional». O equilíbrio é difícil, reconhece, mas, numa negociação, há mútuas «cedências para alcançar um bem maior».

Questionado sobre a legitimidade de uma nova lei laboral sem um mínimo acordo prévio com sindicatos, representantes formais dos trabalhadores, o patriarca respondeu com uma pergunta: «Aprovada dessa forma, como e em que condições é que [uma nova lei] vai ser posta em prática?». Nessa noite, o primeiro-ministro Luís Montenegro foi visto na procissão das velas, início das celebrações de maio presididas pelo patriarca de Lisboa.