Não é só a astúcia que conta. É também o que se faz com o potencial e o que se relativiza. Dom ou dádiva dos deuses, a astúcia eleva-se acima das beligerâncias humanas. Portanto, nem todos os fins justificam os meios e vice-versa. Em Homero, implica a honra e o respeito, incompatível com a dissimulação. O cavalo de Troia revela o custo de pôr a astúcia em prática sem questionar o meio e os fins. Na Ilíada, os supostos vencidos falseiam a honra com um dos ‘mil artifícios’ de Ulisses, fingindo homenagear os vencedores com a oferenda de uma figura divinizada. Os troianos, ‘domadores de cavalos’, supostos vencedores, não a queimam porque os inimigos aqueus respeitariam um compromisso divino. A violação destas condições – ética e honra – solta a desgraça sobre os helenos de Tessália, tomados pela cólera de Aquiles, pela soberba de Agamémnon, disfarçada pela fúria de Menelau, que vira a bela mulher Helena ser levada para Troia com conivência divina. É o ocaso de uma era. Depois de vencerem Troia, a terra ‘ventosa’, caem em desgraça e tudo na Odisseia tem a tragédia da fraqueza e da resiliência dos homens, da ira e da clemência dos deuses. Entre o Hades e o Olimpo, vislumbra-se uma ética homérica para a morte. Há que honrá-la. Uma ética que a filosofia grega aprofundaria séculos depois, com a aristotélica Ética a Nicómaco a propor a organização racional da platónica pólis.
A oralidade infunde-se na mitologia poética de uma epopeia, ou, se quisermos, é a poesia que se funde com o mito. A obra de Homero – seja um autor único ou vários autores inspirados – entende-se, por isso, também como narrativa do sagrado, desenhando o destino no crepúsculo dos deuses e nos instintos da fragilidade humana.
Tradutor de Homero, Frederico Lourenço decidiu não ver o filme de que se fala. E acertou em cheio nas razões invocadas. É um bom filme, mas, à Nolan, demasiado empenhado em trazer a poesia épica, o mito, para um hoje de profundas perplexidades, forçando a moral da história para uma geração que gosta de comida mastigada. A viagem de Ulisses será sempre muito mais do que um filme pode mostrar, porque não se encerra num conjunto de imagens para ilustrar uma aventura. Homero estimula a imaginação, «excita a atenção», verificava Maria Helena da Rocha Pereira. As ilhas e os intervenientes – do Ciclope a Calipso, de Poseidon a Palas Atena… – agem com Ulisses, contrariando-o ou ajudando-o na demanda pelo encontro com Penélope, testando as macabras inevitabilidades divinas.
A Odisseia de Nolan passa ao lado de Esquéria, a ilha de Feaces, sem a qual é difícil entender toda a epopeia. O reino dos pacíficos feaces é um exemplar anfitrião, com a vontade subordinada a uma justiça que a supera. Quando Ulisses dá à costa, vulnerável, é recebido com a tradição do melhor acolhimento ao estrangeiro. O herói de Troia ‘sentou-se num trono luzente’, do qual se levantara o próprio filho de Alcínoo, o rei dos feaces. Há uma pergunta que a rainha Arete faz então a Ulisses, a ecoar do fundo dos tempos: «Quem és tu?».
Na resposta, as palavras revelam o herói. Pela memória, com o que não pode deixar de recordar, reconhecendo o que fez e o que não podia ter feito, Ulisses inicia a redenção diante dos homens e dos deuses. Exímios construtores navais, os feaces, tocados pela história do estrangeiro obcecado em regressar a Ítaca, ajudá-lo-ão. Antes da partida, Ulisses ainda ouve Nausícaa, princesa de Feaces, que dele se apaixonara: «Quando chegares à tua terra pátria lembra-te de mim…».
Falta-nos hoje o alcance da poética. A Odisseia continua a ser uma metáfora dos mares atravessados no desespero de uma convicção. Quantos heróis fazem hoje uma viagem assim? Não regressam a casa, procuram tão só um porto de abrigo, a aprendizagem com a lição dos feaces, a preservação da memória. Poseidon ainda castiga e não há Palas Atena que fale à consciência.
Nota: As citações aqui feitas de Odisseia foram traduzidas por Frederico Lourenço, cujo trabalho hercúleo tem recuperado o entusiasmo pela antiga literatura sapiencial.