Sempre que grupos religiosos procuraram assumir-se como detentores únicos da ‘verdade’, tantas vezes numa conivência entre os ‘senhores’ do templo e do tempo, a consequência foi sempre dramática, até trágica, comprometendo a confiança nas estruturas religiosas. A vivência religiosa implica a relação com o mundo, como ele é, com a capacidade de cultivar propostas de ordem ética ou moral, mas sucumbe quando ao mundo cede o domínio do que não é do mundo.
1. Se há dimensão que explica o sucesso histórico do ‘seguimento’ de Jesus de Nazaré, é a flexibilidade na adaptação a cada momento da história, a sintonia com os sinais de cada tempo. O ‘seguimento’ surgiu e manteve-se na convicção de que o testemunho é maior do que o tempo e qualquer ideia que se tenha de Jesus de Nazaré é sempre inferior ao que este pode representar na vida concreta de quem acredita. A chave para entender a fé está no primado da realidade e da consciência, valorizando a relação com as diferenças e a dúvida, o gerúndio que interpela a vivência religiosa. O que se experimenta num caminho de dúvidas, vai sendo marco num terreno de oportunidades.
2. Em contexto eclesial, a tradição não é uma parede intransponível ou uma cartilha inamovível. De base oral ou escrita, a tradição está sujeita, como a bíblia, ao bom drama da interpretação, por isso reconstrói-se e redefine-se. Como insistia o Papa Francisco, noutro contexto, «a realidade é maior do que a ideia». Ecclesia semper reformanda - Igreja sempre em reforma, não é só um conceito aplicável às Igrejas protestantes, mas um pilar para desocultar e atualizar a fé cristã em cada tempo, fazendo-a intemporal, centrando a histórica e inevitável tensão entre a unidade e a pluralidade.
3. Vem isto a propósito do debate sobre uma nova ‘excomunhão’ na Igreja católica. O caso em concreto é quase uma não-notícia. A Fraternidade Sacerdotal S. Pio X está há décadas fora da comunhão com o Papa, negando a dinâmica de reforma, reforçada no Segundo Concílio do Vaticano. A rutura já existia, apenas se confirmou com um ato de desobediência ao Papa.
Há outros ‘tradicionalistas’ na Igreja, o que poderia ser um sinal positivo da inegável e salutar diversidade na vivência da fé. Organizados, estes ‘tradicionalistas’ católicos dizem manter a fidelidade ao Papa, ocupam lugares de relevante representatividade, mas estão, direta ou indiretamente, alinhados com práticas de exclusão na ação pastoral e têm visões contrárias ao dinamismo do concílio ou da sinodalidade. O Papa Francisco chamou-lhes «retrocedistas» e o Papa Leão reafirma o empenho em ampliar o espaço de unidade e em criticar polarizações.
Nota: São conhecidas e faladas entre crentes as profundas diferenças no quotidiano eclesial, com enquadramentos teológicos, sociais e até políticos. Como é já assumida a profunda diferença nos métodos pastorais, entre paróquias e comunidades vizinhas, dependendo do padre ou das lideranças, com consequências no acolhimento, na forma de ver a sociedade e a Igreja. No terreno, o catolicismo é a prova concretizada de que as religiões, embora alicerçadas em preceitos doutrinários, não são edifícios monolíticos. Estão e são no mundo. Na prática, assumem-se no meio e também na circunstância da polarização social ou política.