Três pontos nas eleições presidenciais, pelo olhar de um míope com astigmatismo e lentes progressivas:
1. Um político, como qualquer cidadão, define-se também pelo que pensa, diz e faz. Não estamos diante de um concurso de personalidade ou experiências de vida, embora estas sejam importantes. Estão verdadeiramente em confronto duas visões de sociedade. A moderação ou o radicalismo, a inclusão ou a discriminação, a firmeza do diálogo ou a deriva autoritária, a corresponsabilidade democrática ou o saudosismo ultramontano, a ponderação da razão ou a irracionalidade, a humildade da temperança ou o populismo messiânico, a idoneidade ou o artifício, a seriedade ponderada ou a estratégia da agitação, o respeito pelas instituições ou a desagregação, a verdade como modelo inequívoco nas relações ou a mentira como instrumento de preconceito, o humanismo de Erasmo ou o cinismo de Maquiavel, a segurança do discernimento ou a aventura da precipitação. Não se confundam estes antónimos com o caráter pessoal, mas é inequívoco que um dos candidatos dá rosto à determinação com decência, à virtude da perseverança, à sabedoria da paciência, características a que é chamado um Presidente da República.
2. Numa candidatura à chefia do Estado não é compreensível ou coerente erguer bandeiras de divisão, rutura ou revanchismo, sejam elas apenas oportunismo partidário ou convicção. É contrário ao dever da função. Em Belém não se espera que esteja a ‘esquerda’ ou a ‘direita’, um partido ou uma agremiação. O tomo sagrado é o da Constituição. Soares foi claro nas eleições de 1986, quando alguns apoiantes esperavam desforras. O Presidente é para «todos os portugueses», não é para fações. É chamado a unir, valorizar o difícil exercício da política, segurar as pontas soltas que podem pôr em causa a república, a democracia. Uma vez eleito não tem eleitorado, serve um estado de direito e concidadãos com direitos, liberdades e garantias. A tarefa antevê-se mais complexa pela exigência de atenuar as fraturas sociais, culturais e políticas que caracterizam este tempo.
3. Há fluxos transversais de análise em cada ato eleitoral, com debates e interpretações, mas só quem vê as presidenciais com a estrita lupa partidária pode dizer que o governo, este ou qualquer outro, e a oposição, esta ou qualquer outra, ganham ou perdem nestas eleições. Os discursos na noite da primeira volta revelaram que o equívoco permanece. Se um político não é neutro ou amoral, a função presidencial tem um superior desígnio. Oriundos de campos ideológicos distintos dos governos com quem conviveram, Marcelo, Cavaco, Sampaio, Soares e Eanes revelaram essa capacidade supra, respeitaram os equilíbrios que a constituição confere, sem abdicar da influência e dos valores que sustentavam as respetivas visões políticas. Todos protagonizaram a natureza semipresidencialista, a interdependência entre os órgãos de soberania. Há dúvidas quanto ao candidato que assegura este perfil?
Nota: Não é lícito chamar ao debate os «valores cristãos» nos termos em que um dos candidatos tem feito. O Evangelho bastaria, embora, para entender o equívoco e a usurpação, possamos recuperar também toda a documentação que sustenta a ética e o pensamento social-cristão – a Doutrina Social Cristã. Há que reler ainda as recentes palavras do Papa Francisco sobre nacionalismos e populismos, que transportam «a soberba, o ódio, a mentira», ou os pronunciamentos sobre imigração, pobreza e «esta economia» que «mata», já reafirmados por Leão XIV.