‘…para valer!’

Qualquer cidadão, esteja em exercício institucional ou na participação básica da cidadania, é, em democracia, um agente político.

No desenrolar do tempo político afirma-se uma descontinuidade. Com a aparente desinstitucionalização ideológica e dos fundamentos de uma ética comum, emerge o ‘ser’ inerte e relativo. Ao invés da maturidade na existência social e na partilha da responsabilidade comunitária, esta fragmentação (re)constrói o oportunismo de uma não-ideologia, sob argumento da eficiência, que, em deriva, desencadeia um individualismo irracional, pujante em tribos digitais, em bolhas opinativas. Os fins passam a justificar os meios e questiona-se já a salvaguarda da dignidade humana, os princípios sobre os quais se construiu a humanista convivência democrática e das nações. Normaliza-se a contradição, a inverdade e a anomalia, como métodos lícitos, quebrando os alicerces da confiança, sem a qual a cultura democrática definha.

Estranho tempo este, em que ouvimos gente, em lugares de representação político-partidária, a zurzir a política, os políticos e os partidos. Alimentam a falácia, como se não fizessem parte da engrenagem. Na verdade, qualquer cidadão, esteja em exercício institucional ou na participação básica da cidadania, é, em democracia, um agente político.

Os incrédulos podem refugiar-se em Voltaire, que entendia a política como tendo «fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano», mas até o grande Eça, sarcástico militante nas críticas à contemporânea elite política, reconhecia, em A Cidade e as Serras, que «o pessimismo é excelente para os inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da inércia». Este pessimismo, usado em estratégicas convulsões oratórias, alimenta a intencional demagogia nacionalista e populista, apresentando a vida social e política a preto e branco.

Como lembrava o antifascista Cesare Pavese, a política é «a arte do possível» e «toda a vida é política». Do local onde decidimos comprar o pão, à escolha do posto de combustível, passando pelos gostos musicais, tudo pode estar revestido de atitude política e a pluralidade expõe ideais e ideias, dimensões culturais, que correspondem a experiências, sonhos e interesses... a pessoas.

O exercício da cidadania é político. À exceção de quem não pode ou é injustamente excluído, só não intervém ativamente quem não quer. Temos o dever de contribuir para a escolha das lideranças políticas. Sendo uma gota no oceano de possibilidades de participação, o voto deve, por isso, refletir o pulsar colaborativo, consciente, dialogado. Há um caminho a (re)fazer, seja da parte do cidadão indiferente ou do político eleito, este com a obrigação de auscultar e respeitar a palavra dada, sustentando as opções na circunstância. Churchill comparava o exercício político a uma guerra, mas se «na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez», na política pode morrer «diversas vezes».

À conversa com jornalistas na antiga eira da Mourísia, aldeia em Arganil, onde até há poucas décadas se malhava o centeio e hoje o pano de fundo é de negra desolação, o Presidente Seguro apertou a ferida. As promessas «têm de ser concretizadas» e as pessoas têm de verificar que «quando o poder político fala, é para valer». A forma segura de reconciliar os cidadãos com as instituições políticas e partidárias tem a condição da decência. Sendo imune a um populismo redutor, que neutraliza o pensamento, o cidadão tem também de pensar no todo, no bem comum, abrir-se ao conhecimento, e, com este, reforçar o sentido crítico na participação política.