A calamidade revela muito do que somos e nos falta. As ‘alterações climáticas’ estão no léxico, nas conversas. Ao risco sísmico e à previsão de fenómenos meteorológicos extremos, devíamos corresponder com adequadas políticas de prevenção estrutural, como seria a redundância energética, e com a organização civil coordenada e formada no exercício de uma cidadania altruísta. É uma prioridade. Um exemplo: quantas famílias guardam em casa um kit de sobrevivência? O Estado tem de assumir um papel ativo nesta cidadania de prevenção. Na madrugada em que as previsões alertavam para uma tempestade com impacto ‘catastrófico’, havia vasos nas varandas, estruturas de obras ao relento e gente a circular nas estradas. Este quadro comportamental requer uma resposta abrangente e consequente. É urgente a sensibilização para a proteção de pessoas e bens, assim como o reforço de plataformas voluntárias de proximidade. Vislumbra-se ainda a necessidade de repensar o ordenamento, rever o perfil arquitetónico e de engenharia no edificado, com investimento na adaptação do edificado existente para o tornar mais resiliente. A destruição no centro do país gerou uma situação de emergência semelhante à de uma guerra. As consequências económicas e sociais são de longo prazo.
Ao invés de uma débil atitude preventiva, respondemos como poucos diante de uma crise aguda. A generosidade está no terreno, revela uma coesão social de base quando falha o resto e as povoações se sentem indefesas. «Juntos somos mais fortes», lê-se num painel de rua em Leiria. E se o voluntariado de reação faz parte da nossa matriz comunitária, também impõe uma reflexão. A mobilização exemplar em situações de crise contrasta com uma crescente indiferença na cidadania do quotidiano.
A Confederação Portuguesa do Voluntariado anunciou um programa para o Ano Internacional dos Voluntários. Haverá mais de um milhão de voluntários(as) nas muitas áreas de atividade. Gente que oferece, oferecendo-se. Mas o número de voluntários(as) está a decrescer, sobretudo entre as novas gerações em idade ativa, tomadas por conhecidas dificuldades e mais sensíveis a desafios focados. O ambiente tecnológico também não facilitará. Prioridade? Tornar visível o voluntariado! É uma necessidade preocupante, um problema cultural, político e mediático. Enquanto a gratuidade e a doação perdem visibilidade, ganham espaço as relações utilitárias e individualistas, de desagregação institucional, quebrando redes de confiança.
Há que convocar consciências, exercitar a razão. Sem altruísmo voluntário, gente disponível para dar tempo e conhecimento, muitas frentes na promoção do ‘bem comum’ desapareceriam ou ficariam muito frágeis. O que seria de serviços públicos e redes locais de pertença, como hospitais, bombeiros, IPSS, Misericórdias, visitadores de idosos, associações recreativas, de moradores ou de pais, escolas, universidades, clubes desportivos, museus, teatros, bibliotecas, bandas filarmónicas, condomínios, comissões de festas, partidos políticos, grupos religiosos, escu(o)tismo e muito mais, sem o voluntariado?
Alguém dizia, num destes dias, que o voluntariado é o «lençol freático sob os pés das comunidades», a salvaguarda. «Não o vemos, mas está lá». Só damos por ele quando dele precisamos. «Sempre que fazemos um furo, a água (o altruísmo, a nossa humanidade) vem ao de cima», mas sem os largos milhares de voluntários que mantêm um compromisso de regular compaixão, persistente e discreto, perderíamos o que melhor nos define em humanidade: «…o próximo, como a ti mesmo».