Leão XIV ousa o foco na inteligência artificial, na mesma medida com que Francisco ousou na ecologia integral. Se, na encíclica Laudato Sí, o Papa argentino traçou um desenho tempestuoso da sustentabilidade do planeta, com a corresponsabilidade humana, em Magnifica Humanitas, o Papa norte-americano vê nuvens tenebrosas no horizonte da tecnologia digital. Afinal, tudo está ligado. Os dois atualizam a Doutrina Social da Igreja e nenhum será visto como quem tenta apenas parar o vento com as mãos. A religião trabalha os impossíveis, é também a profunda convicção na capacidade humana que a move. Prevost cita o escritor católico J.R.R. Tolkien, em O Senhor dos Anéis: «Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível…» (MH, 213). O Papa faz a abordagem transversal aos desafios da IA - guerra, relações laborais, desigualdades… - e sublinha «um risco menos visível, mas não menos grave», que é o «do controle social» com «recolha massiva de dados» e «utilização de sistemas algorítmicos» (171). O pontífice diz não ter medo da IA, mas da possibilidade desta se tornar num «vírus silencioso» (166) sem a vacina da ética. Nas narrativas de fundo, vislumbra também o «transumanismo ou pós-humanismo», com dedução «tecnocrática» (172), que literatura e cinema fantasticamente têm retratado. Leão XIV fala numa «visão futurista do ‘homem aperfeiçoado’ ou do ‘homem hibridado’ com a máquina», com o ser humano «tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar» (115). A consequência é o descarte dos «menos úteis, desejáveis e dignos», o sacrifício dos mais frágeis para «uma suposta otimização da espécie» (117).
É de Spielberg - cineasta que trabalha a profunda natureza humana, com a história revelada ou pela criativa ficção científica - um dia imaginado como só o ser humano pode imaginar. Tem 25 anos o filme Artificial Intelligence, no qual a humanidade é colocada na memória de David, uma criança androide, criada artificialmente com amor incondicional. Milhares de anos depois da nossa era, extinta a raça humana num cataclismo global, o único desejo de David, que sobrevivera precisamente por ser uma máquina, é voltar a estar com a ‘sua’ mãe, a mulher que o comprara para substituir o filho biológico, gravemente doente. David quer ser «um menino verdadeiro», para que a ‘sua’ mãe o ame de verdade. Nem o facto de ter sido abandonado o demove no amor para o qual fora programado. Tecnologia alienígena permite então recriar, apenas durante um único dia, um ser humano a partir do ADN e David consegue reencontrar a ‘sua’ mãe num dia que valerá por todos. O menino androide tem então os momentos mais felizes da memória emotiva. Quando cai a noite naquele dia irrepetível, a ‘sua’ mãe, sem que se lembre do passado trágico, apenas da relação com David, confessa-lhe, antes de adormecer para sempre, que… sempre o amou. Deitado ao lado da ‘sua’ mãe, David também adormece, e, diz o narrador, «pela primeira vez, vai para aquele lugar onde os sonhos nascem».
Tudo isto é humano, consciência (des)construída. Um pós-humano, para ser inteligente, destilará a dramática genialidade humana, mente e corpo, sintético ou hibrido, com «a verdadeira maravilha dos sentimentos», como descreve António Damásio. Somos «alegres e mesmo extasiados com o que fazemos» (Sentir e Saber, 2020). E o amor, na imprevisibilidade de uma experiência intransmissível, não se explica, revelando a fronteira. A IA não tem «uma consciência moral», não «assume sobre si o peso das consequências», nem capta «o sentido último» (99). Como nunca inventaria a Bossa Nova…