sexta-feira, 15 mai. 2026

Leão, Trump e o ‘delírio de omnipotência’

Mais tarde ou mais cedo, o presidente norte-americano iria reagir ao crescente protagonismo do Papa, que foi naturalmente assumindo uma voz global contra a polarização político-social, a violência, o ódio e a guerra. 

O embate entre o Donald Trump e Leão XIV era expectável. Só não aconteceu mais cedo porque o Papa cumpriu, em 2025, a agenda do antecessor, empenhou-se sobretudo no Jubileu, na vida da Igreja, na reorganização dos órgãos da Santa Sé. A diferença entre estes dois norte-americanos, com visões inconciliáveis no respeito pela dignidade humana, era já evidente ao tempo do cardeal Prevost, homem de confiança de Francisco. 

Mais tarde ou mais cedo, o presidente norte-americano iria reagir ao crescente protagonismo do Papa, que foi naturalmente assumindo uma voz global contra a polarização político-social, a violência, o ódio e a guerra. 

Já em 2026, fizeram eco nos Estados Unidos as palavras de Leão sobre a intervenção na Venezuela ou a insustentável situação de Gaza, dos palestinianos e do Líbano. A ida a Beirute na primeira visita ao estrangeiro não foi um acaso de agenda. A guerra com o Irão e o anúncio de um countdown para destruir uma civilização, apenas endureceram a intervenção papal.

As palavras do Papa numa oração pela paz, dia 11 de abril, foram dirigidas a todos os senhores da guerra, que se julgam donos do tempo ou dos templos, a todas as alegadas inevitabilidades beligerantes, a «cadeia demoníaca do mal», como ele afirmou, mas é o contexto que faz de Trump o alvo principal. Leão constata as ambíguas motivações da guerra e quem tenta fazer dela um confronto religioso. Os discursos do apocalipse feitos por comandantes militares, alegando que Trump é um enviado de Deus, a conselheira espiritual que comparou Trump a Jesus Cristo, o secretário da guerra que pede orações pela vitória militar no Irão, os pastores evangélicos que oram com Trump no gabinete, são sinais de um crescente nacionalismo cristão, um populismo que usa a religião e preocupa o Papa.

Ao gritar «basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro, basta com a ostentação da força», o Papa fala também para os católicos conservadores norte-americanos que aderem à deriva ideológica MAGA. E separa as águas. «Quem reza não mata nem ameaça com a morte», diz, citando a Bíblia, e quem assim procede faz «de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe». Realçando o papel das «forças morais e espirituais», pessoas ou instituições que ativamente promovem o diálogo e a justiça, Leão dá sequência aos apelos dos antecessores, nomeadamente Francisco, propõe um «artesanato da paz», uma «barreira contra esse delírio de omnipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressivo». 

Com diversidade nas vivências comunitárias e pessoais, o sentimento religioso é complexo. A reação jocosa de Trump, ao publicar uma imagem gerada pela IA que o apresenta como se fosse Jesus Cristo, pode ser entendida pelos crentes como ofensa, até porque não se enquadra na liberdade de uma caricatura artística, é uma atitude com revestimento egocêntrico e imprevisíveis consequências culturais. Trata-se, afinal, do chefe de estado com mais poder bélico nas mãos. Esclarecendo que não tem medo da administração Trump e continuará a defender o evangelho, é Leão que, para memória futura, salvaguarda a religião cristã, rejeitando que esta volte a tornar-se um argumento de guerra.

Nota: Leão denuncia a «loucura da guerra», mas este episódio revela também a loucura do narcisismo mediático. Trump não suporta quem lhe faz sombra e o pontífice tem já essa imagem pública, uma boa imagem para um Papa que tardava em ter o seu momento de consolidação no panorama internacional. Nascido em Chicago, Leão XIV representa, até mais ver, a consciência de uma América – e de um mundo… – que não suporta Trump, mas recusa abdicar da decência para combater o que ele personifica.