Recordo as palavras de uma jovem de Toledo na JMJ de Lisboa: «Francisco é o nosso avô querido, precisamos dele». E Leão? Num debate televisivo de um canal catalão, alguém o comparou a um «bom professor», daqueles que enchem a sala de aulas com voz cândida e palavras assertivas.
Leão XIV ganhou a Espanha católica, conseguiu um quase consenso de empatia. Nascido nos EUA, também com nacionalidade peruana e fluente na língua de Cervantes, falou catalão em Barcelona, chegando ao coração identitário da Catalunha. Nas Canárias, inscreveu o antecessor na etapa das migrações - Francisco queria visitar as ilhas, mas não conseguiu - e fez esquecer a frustração espanhola por não ter recebido o Papa argentino, que por duas vezes visitou Portugal.
Em Madrid, Leão juntou mais de um milhão de crentes em volta da praça Cibeles, diante de uma escultura alusiva à clássica deusa pré-cristã, que Homero cantava como «a musa de voz clara». A imagem da virgem de Almudena, ao lado do altar, clarificou a devoção e na missa pela festa do Corpo de Deus, Leão teve voz clara quando falou das expressões mais quentes da religiosidade católica, intensamente vividas em Espanha, com procissões que, disse, não podem ser só «folclore ou simples adorno estético», mas um ponto de partida para a vida concreta, pois «ninguém pode ajoelhar-se diante do Senhor e desprezar o irmão».
Há um metódico e organizado esforço de clarificação nas intervenções de Leão. Em Barcelona, numa vigília para jovens, onde lembrou as mulheres vítimas de violência doméstica, em relações «com abusos e opressão», Leão propôs um antídoto para novas gerações de convertidos, que é remédio para obsoletas catequeses. Esclareceu um dos equívocos maiores na vivência da fé: a dor não deve ser espiritualizada como se fosse «a vontade de Deus ou algum projeto Seu», pois «Deus não quer o sofrimento».
À porta da catedral de Sta Cruz e Sta Eulália, no bairro gótico, um grupo de jovens entoou entusiasticamente cânticos religiosos enquanto esperava a chegada do Papa. A certa altura, um miúdo soltou um ‘viva’ com um nome - o fundador de um dos movimentos conservadores da Igreja - e logo a seguir todos gritaram repetidamente «Barcelona es cristiana». Ali ao lado, outros crentes não acompanharam este empolgamento. A Igreja é também esta expressão de diversidade entre polos históricos. Leão pede a humildade da escuta para permitir a unidade na diferença, num exercício sinodal, construindo pontes na sociedade, na Igreja em particular.
Há uma visão macro que se sobrepõe. O que vai ecoar mais alto é a repetida referência à polarização, aos extremismos que impedem o diálogo, aos que «desqualificam a política», à «crítica que humilha». O Papa Prevost consolidou a imagem que tem sido construída, dando continuidade à perspicácia do antecessor sobre o papel da Igreja na sociedade polarizada, perante a «economia que mata» e ganância, no cuidado com o planeta, na salvaguarda do bem comum, na reabilitação da política, na chamada das lideranças religiosas para o lado da paz.
Sem críticas de registo na ala mais conservadora, que tentou ‘abater’ Bergoglio, Leão XIV reforça um estilo conciliador, como ‘bom professor’ que incita à curiosidade e diz o que tem de ser dito. O lema da visita esteve sintonizado: ‘alzad la mirada’. O gesto é literalmente aplicável a Barcelona, com o mais alto templo da fé cristã, uma «obra em construção», porque «a imperfeição não é um defeito», mas o desafio a «um compromisso». A exclamação evangélica aplica-se também como metáfora do nosso tempo, a contrariar o android do algoritmo. «Levantar os olhos», erguer o olhar para não atropelar quem está ao lado. Temos Papa.
Eurodeputada PSD