terça-feira, 21 jul. 2026

Artur Bual, 100 anos 

Nos vértices de luz e nas zonas sombrias, Bual desafia quem o vislumbra a ser livre e, em liberdade, interpretar a arte que ele próprio liberta. 

É nas margens de um peculiar expressionismo que sondamos a intenção de Bual em cada gesto projetado na tela. Na busca de um poema visual, mesclado de suaves rimas e quentes emulsões, Bual segue um percurso aberto ao inesperado, conjugando as naturezas para soltar um quinto elemento. 

Como Morricone, Williams ou Zimmer são banda sonora de muitas vidas no nosso tempo, ajudando a rir ou a chorar, a amar ou a perdoar, assim, igualmente, pintores, poetas e outros artistas dão colorido, palavras e sentido às inquietações do quotidiano. A arte ajuda-nos a desocultar o que não entendemos ou não conseguimos explicar. O que nos define não é só o que vemos, ouvimos e lemos, mas também o que interroga e nos interpela. O bom drama humano está em interpretar o que vai além do nosso curto espaço de compreensão. E a arte, orientando ou desorientando os elementos, é talvez a mais sublime ferramenta que o ser humano tem ao dispor. Soltando-se de contextos meramente racionais, do óbvio e linear, insere-nos nas relações éticas entre pessoas e com a natureza envolvente. Se há algo mais do que o acaso, a arte dá-nos a ocasião do vislumbre. O artista até pode procurar respostas, mas revela-se na infinita capacidade de fazer perguntas às respostas que julga ter. À semelhança da liberdade de acreditar, de crença, celebrar a arte e os artistas é um dos derradeiros refúgios da humanidade na deriva artificial. Como pode uma máquina dizer um pintor que dobra as linhas direitas e contraria a estética do óbvio para sondar as impenetráveis formas que dão corpo a uma inquietação no gerúndio? Como pode a máquina replicar a vontade sem saber bem como ou o alcance final? 

Um ciclo de exposições celebra na Amadora os 100 anos do nascimento de Artur Bual, o pintor que vai ao esplendor dos sentidos pela rasgada emoção que dá aos materiais, recriando o insondável, elevando a condição humana a um estado de criativa inquietação. É nas margens de um peculiar expressionismo que sondamos a intenção de Bual em cada gesto projetado na tela. Na busca de um poema visual, mesclado de suaves rimas e quentes emulsões, Bual segue um percurso aberto ao inesperado, conjugando as naturezas para soltar um quinto elemento. O gesto pode ser abstrato, momento e teimosia, mas, na gota que se solta de um pincel, o acaso é a ocasião, capaz de se revelar e nos regenerar, sem sabermos como nem porquê. Bual está antes e depois da abstração, quando, num instante, pode definir-se como recomeço. Um artista entra no conflito com os materiais que tem à mão, sejam tintas, volumes, notas musicais ou letras, que se conjugam para criar formas, sons, tempos, espaços ou palavras. Se a centelha da inspiração nasce na experiência concreta de vida, em Bual é também o confronto, pela cor, pelo símbolo, pela energia, pelo traço (in)certo e pela (in)certeza do objeto. Bual projeta-se, como quem procura encontrar-se, e nesta procura… encontra-nos. «Penso que a minha pintura está a acontecer comigo», explicava, transportando nela «a insatisfação do humano em busca do transcendente». Uma transcendência que não é refém, que vibra fora dos cânones, fora do eixo, «visão pessoalíssima», como a definiu José Tolentino de Mendonça, referindo-se especificamente ao(s) Cristo(s) de Bual, capaz(es) de transmitir «visões novas», que «ajudam a desconstruir lugares-comuns»

As comemorações na Amadora fazem-se com três exposições. A primeira e mais significativa ocupa a Galeria Municipal Artur Bual, na Casa Aprígio Gomes. Simultaneamente, no exterior, cinco expositores levam obras e pensamentos de Artur Bual ao espaço público. A segunda exposição é no edifício da Biblioteca Fernando Piteira Santos, e a terceira será inaugurada em setembro nos paços do concelho. 

Nos vértices de luz e nas zonas sombrias, Bual desafia quem o vislumbra a ser livre e, em liberdade, interpretar a arte que ele próprio liberta. 

Nota: Para clarificar a motivação deste texto, o autor lembra que é comissário das comemorações do nascimento de Artur Bual na cidade da Amadora.