1. A expressão nem sempre é usada com a devida honestidade, porque nem todas as ‘causas’ têm a dignidade ética que lhes é atribuída, mas, até por isso, não hesito em dizer e reforçar que o Eugénio Fonseca era um exemplar ‘homem de causas’, de boas causas, sempre com generosidade e confiança, assente numa profunda fé no evangelho, vértice de todas as ‘causas’ que o mobilizavam.
Depois de uma vida ligada a instituições públicas, políticas e eclesiais, pela justiça social, no combate à pobreza e desigualdade, o Eugénio abraçou com focada convicção a ‘causa’ do voluntariado. Presidia a Confederação Portuguesa do Voluntariado (CPV). Andava empenhado em dar visibilidade ao Ano Internacional do Voluntariado e desenvolver, estratégica e estruturalmente, o voluntariado. Foi a sua última luta que, posso testemunhar, o consumia até ao limite, sempre com aquele teimoso e discreto otimismo.
2. A CASES - Cooperativa António Sérgio para a Economia Social - é a estrutura que, dizendo de uma forma simples, tem como função o apoio estratégico à economia social e ao voluntariado, dinamizando a formação, competências técnicas ou a articulação de estratégias para qualificar e certificar a ação de voluntariado. A maioria do capital social da CASES era do Estado, o grande suporte, tendo como principais parceiros a ANIMAR, a CONFECOOP, a CONFAGRI, a CNIS e a UMP. Era… porque o Estado, por decisão do governo, decidiu sair da CASES, que, com esta ‘exoneração’, deixa de ter meios para manter o desempenho. Há que encontrar agora uma nova estrutura no apoio estratégico, cooperativo e mobilizador, ao desenvolvimento do voluntariado, mas o Governo entendeu distribuir estas competências por departamentos ligados ao emprego e relações laborais (IEFP e DGERT). Para o voluntariado é um paradoxo, um estranho paradoxo. Em primeiro lugar, começando do zero, há o risco de se perder todo o património técnico, conhecimento de parcerias e contactos, trabalho de estudo e relações, conseguido ao longo de anos. Em segundo lugar, nem DGERT, nem IEFP têm como vocação o setor do voluntariado, é um evidente contrassenso. Em terceiro lugar, é um balde de água fria em pleno Ano Internacional do Voluntariado. O Eugénio teve este ano mais de uma dezena de reuniões ou pedidos de reunião com a secretaria de estado, a DGERT ou o IEFP. Pelo que soube, sem consequências. O Estado, a começar pelos governos, não pode demitir-se de incentivar o voluntariado, promovendo a participação altruísta, a corresponsabilidade como matriz de cidadania.
3. A CPV está a mobilizar os principais agentes para apresentar uma proposta estratégica do setor até 2031. Não há tempo a perder. Estatísticas em países europeus revelam que o voluntariado representa 1,5% do PIB. É tão impactante que, mesmo revelando-se ao nosso lado, nem o questionamos ou falamos dele, tornando-o invisível. Calcula-se que haja entre 1 milhão e 1 milhão e 500 mil voluntários em áreas tão diferentes como desporto, escola, infância e juventude, cultura, terceira idade, saúde e hospitais, proteção civil, segurança, património, ambiente, religião, associações de moradores, organizações político-partidárias… O movimento associativo (sobre)vive de voluntariado, a começar pelos dirigentes, e há uma dramática tendência para o decréscimo de voluntários, não sendo difícil prever o que aconteceria sem o voluntariado. A desagregação individualista pode ser apenas um primeiro sintoma social.
O Eugénio defendia que a coordenação estratégica e o cuidado do voluntariado merecem uma estrutura própria, eventualmente sob tutela da presidência do Conselho de Ministros. Seria a mais justa homenagem que o Governo português lhe faria. Acrescento outras duas hipóteses: uma parceria estratégica com a CPV ou a criação de uma estrutura integrada na Presidência da República - creio que o Presidente Seguro abraçaria a ideia. Há que agregar todos os agentes do voluntariado, com recursos, meios, capacidade de decisão e um quadro legal que o defenda.