Com o Papa em viagem, Roma e o Vaticano têm rotinas mais focadas no património. Seja por motivação religiosa ou apenas curiosidade histórica - e em muitos casos, as duas -, mantém-se um mergulho na mística do belo, da arte e dos(as) artistas. Por isso, turismo e comércio não param, numa relação quase insustentável.
Com o abraço de Bernini na praça de S. Pedro ou o dedo criador na capela Sistina, no coração da cidade, do Palatino ao Ara Pacis, dos Caravaggio da Villa Borghese ao ‘triunfo celeste’ da igreja de Sant’Anese in Agone, em tantos museus, tantas igrejas, ruas e ruelas, praças e ruínas, Roma e a Igreja católica têm a eterna capacidade de se dizer com a cultura.
Vem isto a propósito de uma intervenção de José Tolentino de Mendonça na universidade romana de Santa Croce, num encontro com jornalistas portugueses de diversos meios e comunicadores da Igreja católica, durante a visita do Papa a quatro países africanos. Desafiado a falar da política cultural do Vaticano, o cardeal português lembrou uma «viagem» entre dois mundos: «Jerusalém e Atenas». Recordando os tempos iniciais da fé cristã, falou da coexistência entre «a identidade e o diálogo», a fé e a filosofia, ou, se quisermos, a convicção numa pertença de fé e a convicção na dúvida como método para sondar a «verdade».
O domínio das palavras de Tolentino de Mendonça - prefeito do dicastério para a cultura, uma espécie de ministro da cultura da Santa Sé - aplica-se ao contexto em que a religião se apresenta hoje, num mundo entre outros dois lugares aparentemente inconciliáveis: a essência intransigente da convivência, que implica tempo e conhecimento - matriz das relações humanas -, e o estreitamento de perspetivas, que isola o individuo ou uma tribo, fechados a quem pensa diferente. Nada disto é novo na experiência humana, mas, ampliada pelo algoritmo em rede, ganha uma dimensão tão tremenda quanto indefinida. Religião e cultura atravessam juntas este mar alteroso, ‘em reciprocidade’. O fenómeno religioso, como a cultura, é relacional. Sem o horizonte religioso, a cultura não se entende integralmente. Sem o horizonte da cultura, a fé perde a inquietação que a alimenta.
A Igreja católica tem vozes identitárias, do Papa ao clero, religiosos(as) e leigos(as), empenhados(as) em dialogar com o mundo, gente que procura «fórmulas criativas de se dizer», de se apresentar em relação, em diversidade. Mas a força de um conteúdo, de uma mensagem, mede-se pela capacidade de prolongar o seu efeito no tempo. E se a Igreja, lembra ainda o cardeal Tolentino, representa uma «visão ética» que enquadra a capacidade de acolhimento - embora não seja totalmente coerente neste propósito…-, a arte é uma das mais duradouras ferramentas que tem ao dispor. A arte cria espaços e tempos de humanização, de encontro, que libertam o ser humano e o projetam na busca do indizível. Falta encontrar «gente disponível na Igreja» para aceitar o desafio de mergulhar também no complexo oceano da cultura, fazendo «as sinergias que contrariam a fragmentação e a polarização». Quando a religião - com símbolos, rituais e valores -, pretende expressar-se culturalmente, compreende melhor a natureza humana, a busca e o contraste das grandes inquietações humanas. Quando a experiência religiosa sai de si mesma, faz-se cultura, entra no terreno das grandes dúvidas e dos grandes debates.
«Na sua liberdade», entende o cardeal Tolentino, «os artistas transmitem visões novas, ajudam a desconstruir lugares-comuns» na experiência religiosa. Se, por absurdo, a religião se autoexcluísse da cultura, recusando as expressões que rompem os cânones para abrir novas hipóteses através da arte e do pensamento, deixaria de contar com a multifacetada especificidade que define a procura de um eterno ainda e sempre à espera de se dizer.