A reação de Leão XIV à primeira crise do ano reforça o que tem sido desde o primeiro dia. O Papa assumiu a intenção de fazer a «unidade» na Igreja católica, para a qual se aplica a dinâmica sinodal relançada por Francisco, e de contribuir, externamente, para uma paz «desarmada e desarmante». Leão é um contraponto às polarizações, às beligerâncias militares e políticas, ao retorno dos impérios da força sobre as nações mais vulneráveis.
Nascido em Chicago, com experiência missionária num dos mais pobres países da América do Sul, o Papa Prevost não tem deixado de criticar derivas da administração Trump. Era expectável. Francisco assim fizera, às vezes com palavras duras. Embora assertivo, Leão revela-se em intervenções menos incisivas, escritas com cautela para não bloquear caminhos. Se Francisco pediu concretamente, no arranque no Jubileu 2025, o perdão de dívidas de países pobres e o desvio de verbas de investimentos no armamento para o combate à pobreza, Leão reforçou, no encerramento jubilar, «que em vez das desigualdades haja equidade, que em vez da indústria da guerra se afirme o artesanato da paz».
A Venezuela está agora em pano de fundo. O povo venezuelano, diz o Papa, «deve prevalecer acima de qualquer outra consideração e levar tanto à superação da violência quanto à adoção de caminhos de justiça e paz, garantindo a soberania do País, assegurando o Estado de direito estabelecido na constituição, respeitando os direitos humanos e civis (…), trabalhando para construir juntos um futuro sereno de colaboração, estabilidade e concórdia». Num parágrafo, Leão XIV fixa a posição da Igreja com argumentos intocáveis, mas o foco do presidente norte-americano é outro. A prioridade é o acesso às torneiras do petróleo e do gás natural, às terras raras, cobiçadas por ganâncias imperiais.
2026 antevê-se, assim, um ano desafiante para o Papa e de clarificação para a Igreja católica nos Estados Unidos. Há bispos tradicionalistas, comprometidos com a agenda conservadora MAGA, um ‘retrocedismo’ (palavra usada por Francisco) eclesial, social e cultural, como há bispos que intervêm contra os cortes nos apoios sociais, a política anti-imigração, que fazem acolhimento de crentes LGBT e denunciam os discursos de ódio.
Leão vai desanuviando as divisões. Uma maior liberdade para celebrar missa em latim, reivindicada pelos tradicionalistas, pode ser um exemplo. Ser pontífice, fazer pontes num tempo tão polarizado, é uma tarefa apontada como utópica ou ingénua, mas a recente onda de nomeações episcopais para os EUA expõe a prioridade do Papa. A maioria dos novos bispos, incluindo o de Nova Iorque, é conhecida por críticos pronunciamentos a medidas da administração Trump.
No passado mês de setembro, na sequência da polémica que envolveu um senador democrata defensor da legalização da IVG, que o arcebispo de Chicago pretendia premiar pelo apoio deste à integração de imigrantes, o Papa virou as críticas: «Quem diz ser contra o aborto, mas a favor da pena de morte, não é verdadeiramente pró-vida. Quem diz ser contra o aborto, mas a favor do tratamento desumano de imigrantes nos Estados Unidos, não sei se isso é pró-vida».
A Igreja nos EUA procura ser influente num terreno adverso de pluralismo radical. Não podendo abdicar da denúncia, em defesa da dignidade humana e coerência evangélica, as pontes espirituais ou diplomáticas que Leão construir são de frágil cristal. Como o próprio admite na mensagem para o Dia Mundial da Paz, é grande a tentação de arrastar ‘palavras da fé’ para o ‘embate político’, traindo a própria fé.