Durante os últimos vinte anos, muitas embaixadas europeias em Washington trataram o complexo tecnológico americano como um dossiê económico entre outros. A rápida expansão da computação em nuvem, dos grandes centros de dados, das cadeias de valor associadas e da infraestrutura material e simbólica das redes sociais exigia outro nível de disciplina e densidade nas comunicações para as capitais: cartografia de dependências, análise de riscos de jurisdição e avisos precoces com números, não com adjetivos. Hoje, uma parte decisiva da economia europeia (banca, administração pública, saúde, indústria) assenta em infraestruturas, programas e serviços geridos sobretudo por um pequeno número de fornecedores sediados nos Estados Unidos.
A falha terá sido, antes de mais, metodológica. O ofício diplomático inclui recolha de informação, análise, alerta e tradução em opções para a capital. No dossiê da nuvem digital, faltou capacitação do pessoal diplomático: poucos postos tinham perfis com literacia de infraestruturas digitais; não existia inventário vivo de dependências por setor; as notas eram descritivas, raramente comparáveis; e quase nunca traziam métricas que obrigassem o decisor a escolher entre custo, soberania operacional e risco de interrupção. Quando a dependência se tornou visível, já estava instalada.
A partir daí, a diplomacia correu atrás do regulador. A Europa reforçou as regras de resiliência digital e de supervisão, mas sem intelligence preventiva, as regras chegaram tarde. A capital precisa de saber, com antecedência, onde correm as inovações críticas, que cláusulas de reversibilidade existem, que pontos únicos de falha se acumulam e que mudanças legislativas podem produzir efeitos extraterritoriais sobre os nossos dados, contratos e acessos.
Alguns países perceberam o risco e agiram na direção certa. A Dinamarca mantém, em Palo Alto, um Consulado-Geral e, no mesmo ecossistema, um embaixador para a tecnologia com mandato global. Replicou a lógica em Bangalor, com presença consular orientada para inovação e cooperação tecnológica. A Suíça integrou a rede swissnex no Consulado-Geral em Bagalor, assumindo ciência e tecnologia como prioridade externa. O Reino Unido criou um enviado tecnológico associada ao Consulado-Geral em São Francisco. Estes formatos variam, mas partilham uma ideia simples: presença no terreno com competência técnica e mandato claro.
O que falta à União Europeia é transformar estas experiências em norma operacional. Três medidas cabem no próximo ciclo orçamental – e que podem e devem ser replicadas a nível nacional. Primeiro, postos altamente especializados em polos de inovação: Palo Alto para plataformas e capital; Bangalor para engenharia e serviços; Hangzhou como presença técnica de alcance, inicialmente leve, focada em cadeias de fornecimento e normalização técnica, articulada com o consulado-geral competente para a região. Segundo, um embaixador itinerante para a inovação tecnológica, com agenda permanente entre Washington, Silicon Valley e polos asiáticos, capaz de falar com empresas, reguladores e legisladores em linguagem técnica e de levar à capital alertas difíceis de ignorar. Terceiro, um núcleo permanente em Bruxelas, e nas capitais europeias, que agregue dados e produza um mapa mensal de dependências, com indicadores comuns, controlo de qualidade e um circuito de alerta quando se atinge concentração excessiva, cláusulas contratuais problemáticas ou riscos de jurisdição.
Este redesenho exige ajustamentos na carreira diplomática: rotações por reguladores digitais, autoridades de contratação, cibersegurança e infraestruturas energéticas; equipas mistas com especialistas destacados por períodos curtos; e partilha europeia de análises, para evitar que cada Estado-membro descubra sozinho as mesmas fragilidades.
Cada missão diplomática nestes centros de vanguarda tecnológica deve entregar produtos padronizados: alterações regulatórias, mapa de fornecedores por setor crítico, risco por jurisdição e plano de contingência com opções de diversificação e custos. Sem isso, a conversa sobre soberania e autonomia estratégica continuará entregue à retórica apressada e a vídeos curtos em plataformas que, ironicamente, não são europeias.
Tenho sustentado nestas crónicas que a utilidade da diplomacia se mede pela capacidade de antecipar, traduzir e obrigar a escolher. Haverá poucos testes tão decisivos para a diplomacia europeia e portuguesa na próxima década como este.
Nota de transparência: O autor trabalha na Microsoft, empresa ativa no setor tecnológico referido. Escreve a título pessoal; as opiniões expressas não representam posições da empresa.
Membro do Conselho Coordenador da SEDES,Antigo dirigente das Nações Unidas e da Conferência da Haia de Direito Internacional Privado