A expressão ‘diplomacia dos drones’ está já bem estabelecida na análise internacional. Tem sido usada para descrever a forma como potências médias, em especial a Turquia, transformaram aeronaves não tripuladas em instrumentos de influência externa: venda de equipamento, treino, manutenção, produção conjunta e aprofundamento de relações militares. A Foreign Affairs descreveu os drones como instrumento emergente de diplomacia; o International Crisis Group analisou a expansão turca como fonte de influência, mas também de riscos de escalada e de dano reputacional.
Portugal pode retirar dessa experiência uma lição própria. Durante a campanha presidencial, António José Seguro visitou a Tekever, nas Caldas da Rainha, e defendeu que o investimento em defesa deve privilegiar inovação e tecnologia com retorno para a economia, a proteção civil, a vigilância da zona económica exclusiva e a prevenção de incêndios. Essa é a ponte que interessa: uma diplomacia dos drones portuguesa não tem de copiar a gramática militar de outras potências médias. Pode afirmar uma versão atlântica, civil e ambiental, usando tecnologia exigente, testada em contextos extremos, para reforçar capacidades soberanas de parceiros estratégicos em missões de proteção de bens públicos.
A Amazónia é o caso mais evidente. Não porque o Brasil precise de tutela tecnológica. O Brasil tem uma poderosa indústria aeronáutica, sistemas públicos de observação como o DETER, do INPE, produção nacional de aeronaves não tripuladas e, acima de tudo, servidores públicos, investigadores, fiscais ambientais, populações ribeirinhas e povos indígenas com conhecimento territorial que nenhum sensor substitui.
O problema está na distribuição dos custos. A Amazónia é soberania brasileira, mas o serviço climático que presta beneficia o mundo inteiro. É profundamente injusto que a proteção de uma floresta com valor planetário recaia quase sozinha sobre os impostos, os meios e o risco operacional dos brasileiros. A Europa fala todos os dias de biodiversidade, neutralidade carbónica e transição verde. Essa linguagem só ganha seriedade quando vem acompanhada de meios.
Vi essa desproporção em Anavilhanas. O Parque Nacional, que visitei no mês passado, tem mais de 350 mil hectares, entre floresta, ilhas, rios e isolamento, sob gestão do ICMBio. A missão pública existe. A escala física, porém, é brutal. Uma equipa num barco pequeno pode representar o Estado com dignidade; dificilmente consegue cobrir, com permanência, um território onde a distância se transforma em margem de impunidade. Entre um alerta de satélite e uma ação no terreno há água, floresta, tempo e risco. Nesse intervalo entram madeira ilegal, queimadas, tráfico, garimpo e intimidação.
O Brasil já usa tecnologia e cooperação internacional nesta matéria. O ICMBio recebeu 12 drones, adquiridos no âmbito de cooperação financeira com o banco alemão KfW, para apoiar a monitorização e fiscalização de florestas nacionais na Amazónia. Esse precedente é importante: a cooperação externa pode reforçar instituições brasileiras sem ferir soberania.
Portugal deveria partir daí, com humildade e ambição. A proposta é um programa-piloto Portugal–Brasil de vigilância ambiental em áreas protegidas amazónicas, começando por Anavilhanas ou por unidades que o Brasil venha a definir. O pacote deveria incluir aeronaves não tripuladas, formação, manutenção local, integração com alertas do INPE, protocolos operacionais com ICMBio e IBAMA, envolvimento de universidades, comunidades locais, conhecimento indígena e indústria brasileira. Portugal financiaria parte do esforço; o Brasil desenharia a operação.
Há também uma oportunidade industrial portuguesa. As exportações portuguesas de sistemas não tripulados para a Ucrânia atingiram cerca de 87 milhões de euros em 2025, e os drones portugueses ganharam experiência operacional num contexto extremo. As exportações de drones representaram 21 % de todas as nossas exportações de bens militares. Esse esforço merece reconhecimento. Uma fração pequena dessa capacidade financeira, técnica e formativa poderia produzir um resultado diplomático extraordinário no Atlântico Sul.
O êxito deve ser medido com frieza: área coberta, tempo entre alerta e resposta, apoio a operações, ocorrências prevenidas, custo por hectare monitorizado, capacidade local instalada. Se funcionar, replica-se. Se falhar, corrige-se. A diplomacia adulta, como tenho afirmado repetidamente nestas minhas crónicas, mede resultados, não comunicados.
Há ainda uma razão histórica que Portugal não deve evitar. A presença portuguesa ajudou a abrir a Amazónia a uma economia de extração. Transformar esse facto em culpa ritual é inútil; convertê-lo em responsabilidade prática seria sério. A reparação útil raramente se faz por discurso. Faz-se por capacidade instalada.
Portugal e Brasil falam muitas vezes de irmandade. A palavra é bela, mas gasta-se depressa. A Amazónia oferece uma oportunidade rara: ligar indústria portuguesa, soberania brasileira, ciência pública, conhecimento indígena e responsabilidade climática. Portugal não iria ensinar o Brasil. Iria reconhecer, com meios, que a floresta é brasileira, mas o futuro que ela protege também é nosso.
Membro do Conselho Coordenador da SEDES