Humanizar os cuidados de saúde não é uma utopia generosa de alguns idealistas. É uma necessidade clínica, ética, estratégica e também económica. É uma condição para que os sistemas de saúde recuperem a confiança das populações, para que os profissionais recuperem o sentido da sua missão e para que os doentes recuperem a sua saúde e a sua dignidade.
A humanização em saúde não constitui apenas uma orientação técnica ou um conjunto de boas práticas clínicas. Trata-se, antes de mais, de uma interpelação filosófica profunda à forma como as instituições de saúde concebem o ser humano, a doença, o cuidado e a relação terapêutica. Pensar a humanização é, portanto, regressar às questões fundacionais da ética e da antropologia filosófica: o que é o ser humano? O que significa cuidar? E que tipo de instituições são capazes de acolher, na sua plenitude, a condição humana?
A modernidade ocidental construiu os seus sistemas de saúde sob o primado da racionalidade científica e técnica. O modelo biomédico tende a fragmentar o sujeito doente, reduzindo-o ao órgão afetado, ao diagnóstico codificado, ao processo clínico numerado. Neste paradigma, o corpo é objeto de intervenção e a eficiência torna-se o critério dominante de avaliação institucional. O sofrimento, enquanto experiência subjetiva e existencial, ficou progressivamente marginalizado nos protocolos e nas rotinas hospitalares. É precisamente contra esta redução que a humanização se ergue como projeto crítico e transformador.
Falar de humanização é, antes de mais, falar de cultura. Não de um projeto pontual, não de uma campanha sazonal, mas de uma forma de ser e de estar que deve impregnar toda a organização — desde a rececionista ao diretor clínico, desde a auxiliar de ação médica ao administrador hospitalar. A humanização em saúde pode definir-se como o conjunto de práticas, atitudes e políticas que colocam o doente, a sua família e os próprios profissionais de saúde no centro da atenção, reconhecendo a sua dignidade, respeitando a sua autonomia e promovendo a sua participação ativa no processo de cuidar. Esta cultura institucional deve assentar em três pilares: 1) o reconhecimento da pessoa como sujeito e não como objeto de cuidados — o doente não é uma patologia, é uma vida inteira com história, medos, desejos e relações; 2) a valorização dos profissionais de saúde — quem cuida precisa de ser cuidado - não é possível humanizar instituições com profissionais esgotados ou desvalorizados; 3) a criação de ambientes terapêuticos e acolhedores ou seja espaços físicos e relacionais onde o doente se sinta seguro, informado e acompanhado.
A mudança cultural que a humanização exige não acontece por decreto. Requer liderança comprometida, formação contínua, avaliação sistemática e a coragem de questionar rotinas que, por vezes, se tornam desumanizantes - precisamente por serem rotinas. A construção de uma nova cultura institucional exige mais do que sensibilidade individual dos profissionais. Requer uma transformação das estruturas, dos valores organizacionais e dos modos de governação. Neste sentido, aproximamo-nos da tradição filosófica que distingue entre uma ética das virtudes — centrada no carácter do agente — e uma ética das instituições que interroga as condições estruturais que tornam possível ou impossível agir com humanidade. Uma instituição pode potenciar ou inibir a humanização, consoante os seus modelos de liderança, os seus critérios de avaliação e os seus mecanismos de participação. Assim, num patamar de gestão, a humanização convoca uma mudança de paradigma: da lógica do controlo para a lógica do cuidado; da eficiência como um fim, para a eficiência ao serviço da dignidade humana; da organização como máquina, para a organização como comunidade de sentido. Este é um caminho exigente, que requer não apenas competência técnica, mas sabedoria prática ou seja, a capacidade de discernir, em cada situação concreta, o que verdadeiramente serve a dignidade humana.
Humanizar as instituições de saúde significa, em última análise, reconciliar a eficácia técnica com a dignidade humana; significa reconhecer que o tempo de escuta, a presença efetiva e a palavra que consola não são luxos dispensáveis, mas elementos constitutivos de uma prática clínica eticamente fundada. Uma nova cultura institucional obriga a um processo exigente de reflexão coletiva, de formação humanística dos profissionais e de uma liderança capaz de articular valores com práticas. É neste horizonte que a humanização em saúde se afirma, simultaneamente, como imperativo ético, desafio filosófico e projeto civilizacional.
E é este o horizonte para o qual devemos caminhar. Para que a humanização dos cuidados deixe de ser menorizada na gestão da saúde e passe a ser um pilar estratégico. Para que os orçamentos hospitalares incluam requisitos de desempenho humano e não apenas de produtividade técnica. Para que a formação profissional inclua humanidades, não como disciplinas acessórias, mas como componentes centrais de quem vai cuidar de pessoas.
A humanização faz-se todos os dias, em cada encontro, em cada decisão, em cada gesto. É um compromisso que se renova continuamente — e que nos desafia a ser melhores profissionais, melhores líderes e, acima de tudo, melhores pessoas.
Humanizar é abraçar o futuro sem perder a alma.
Provedor do Utente da ULS de Coimbra
Membro da CNHCS-SNS