quarta-feira, 13 mai. 2026

Do Outro Lado

A cirurgia é amanhã de manhã. Nada de extraordinário, diria eu a qualquer doente com o mesmo diagnóstico. É um procedimento de rotina, vai correr muito bem. Dizia-o com um sorriso tranquilizador e passava à frente. Agora, deitado aqui, a palavra "rotina" parece-me a coisa mais fria e mais cruel que um médico pode dizer a alguém que está com medo.

Trinta e dois anos a percorrer corredores de hospital. Trinta e dois anos a usar bata branca, a ver resultados de exames, a dizer "o senhor vai ficar bem" com aquela voz treinada para transmitir confiança. Trinta e dois anos — e nunca, uma única vez, me ocorreu verdadeiramente o que é estar do outro lado.

Estou deitado nesta cama há dois dias. A cama tem um colchão fino, com uma cobertura de plástico por baixo do lençol que range cada vez que me movo. Movo-me muitas vezes, porque a dor não me deixa quieto. Ninguém me disse que o colchão seria assim. Eu próprio nunca pensei nisso — nunca me interroguei sobre o sono dos meus doentes.

A cirurgia é amanhã de manhã. Nada de extraordinário, diria eu a qualquer doente com o mesmo diagnóstico. É um procedimento de rotina, vai correr muito bem. Dizia-o com um sorriso tranquilizador e passava à frente. Agora, deitado aqui, a palavra "rotina" parece-me a coisa mais fria e mais cruel que um médico pode dizer a alguém que está com medo.

Porque eu estou com medo. Eu, que já expliquei centenas de vezes os riscos cirúrgicos a outros, que assinei consentimentos informados como quem assina uma lista de compras — estou, esta noite, genuinamente assustado. Finjo que estou bem. É um reflexo antigo, quase profissional.

A meio da noite alguém entrou no quarto sem bater, acendeu a luz do teto para verificar o soro do meu companheiro de quarto, e saiu sem apagar. Fiquei a olhar para o teto durante quarenta minutos. Ninguém me avisou sobre o ruído. De manhã cedo, o carrinho das refeições percorre o corredor com um barulho metálico e ritmado, incomodativo. Ouvi o barulho das rodas de uma maca que passa e as vozes de profissionais que falam alto. As conversas junto à porta — às vezes fúteis e com gargalhadas — misturam-se com os gemidos abafados de alguém mais adiante no corredor. É uma sinfonia descoordenada de sons que, cá de dentro, se tornam insuportáveis. Eu próprio já falei assim, tenho a certeza. Nunca pensei que do outro lado da parede havia alguém a tentar descansar, alguém assustado, alguém a remoer pensamentos...

Ontem, uma jovem enfermeira veio fazer-me a colheita de sangue. Não disse o meu nome, não se apresentou. Pegou no meu braço com uma eficiência mecânica, picou, e foi embora com um "pronto" seco. Não será má pessoa — tenho a certeza disso. Estava provavelmente no fim de um turno longo, com doentes a mais e tempo a menos. Mas eu fiquei com aquele "pronto" a ecoar dentro de mim como uma porta a fechar. Quantas vezes fui eu esse profissional apressado? Quantas vezes o meu "pronto" soou exatamente assim?

Há momentos em que o tempo aqui parece dilatado de forma cruel. Espera-se pelo médico, espera-se pela refeição, espera-se por uma resposta, espera-se por uma palavra. O silêncio dos profissionais — quando não há novidades, quando os resultados ainda não chegaram — é interpretado de mil maneiras por uma mente que não tem mais nada para fazer senão pensar. Eu sei que o silêncio, do nosso lado, é apenas gestão de tempo. Mas deste lado, o silêncio é uma forma de abandono.

Amanhã vão operar-me. Um colega de profissão, em quem confio, vai pegar num bisturi e resolver aquilo que me trouxe até aqui. Sei que vai correr bem. Mas o que fica — o que eu sei que vai ficar para sempre — não é o diagnóstico nem a cicatriz. É a memória deste colchão que range. Do ruído no corredor. Do interruptor que ficou aceso. Do "pronto" seco numa manhã fria.

Julguei que sabia tudo sobre o que é estar doente. Não sabia nada. Às vezes é preciso estar do outro lado para perceber o que realmente importa.

Movimento Humanizar a Saúde
Coimbra