segunda-feira, 14 set. 2026

Sol

O facto de o nosso satélite natural conseguir ocultar o Sol deve-se a uma notável coincidência: embora este tenha cerca de 400 vezes o diâmetro da Lua, encontra-se, em média, a uma distância da Terra aproximadamente 400 vezes maior.

Agosto é sempre um mês muito aguardado - «Por ti levo o ano inteiro a sonhar», diz a canção Meu Querido Mês de Agosto - e em que se espera que o Sol brilhe. Desta vez, porém, a grande sensação foi ver o Astro-Rei parecer apagar-se durante alguns segundos, em pleno dia, quando a Lua se atravessou à sua frente.

O facto de o nosso satélite natural conseguir ocultar o Sol deve-se a uma notável coincidência: embora este tenha cerca de 400 vezes o diâmetro da Lua, encontra-se, em média, a uma distância da Terra aproximadamente 400 vezes maior. Por isso, vistos do nosso planeta, ambos apresentam praticamente o mesmo tamanho aparente.

Durante milénios, os eclipses solares causaram espanto e temor, sendo frequentemente interpretados como acontecimentos sobrenaturais ou sinais dos deuses. Essencial à vida pela luz e pelo calor que proporciona, o astro foi venerado por numerosas civilizações. No antigo Egito, Rá, representado por um homem com cabeça de falcão, era o deus do Sol. No século XIV a.C., o faraó Aquenáton promoveu o culto de Áton, personificação do disco solar, e elevou-o acima dos restantes deuses.

A observação sistemática dos céus começou, porém, a revelar uma ordem por detrás desses fenómenos. Ao reconhecerem a regularidade dos eclipses, os babilónios aprenderam a determinar quando poderiam ocorrer.

A primeira explicação física conhecida surgiu no século V a.C., quando o filósofo grego Anaxágoras concluiu que, num eclipse solar, a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol. No século III a.C., Aristarco de Samos propôs que a Terra e os restantes planetas giravam em torno daquele astro, mas a ideia não prevaleceu. Só em 1543, com a publicação de As Revoluções dos Orbes Celestes, de Nicolau Copérnico, o heliocentrismo adquiriu a forma de um modelo astronómico capaz de desafiar a conceção geocêntrica dominante.

Compreender o lugar do Sol no sistema planetário não significava, porém, saber o que fazia brilhar «o celestial girassol», como lhe chamou o poeta Eugénio de Castro. A origem da sua energia permaneceu um mistério até ao século XX. Em 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington propôs que as estrelas produziam energia transformando hidrogénio em hélio; em 1939, o físico alemão Hans Bethe explicou as reações nucleares que tornavam possível essa transformação.

É na região central do Sol, a temperaturas próximas de 15 milhões de graus, que núcleos de hidrogénio - protões - se combinam, através de uma série de reações de fusão, para formar hélio. Nesse processo, uma pequena parte da massa dos protões é convertida em energia, de acordo com a célebre equação de Einstein que exprime a equivalência entre massa e energia: E = mc². Grande parte dessa energia surge inicialmente sob a forma de radiação gama e de energia cinética das partículas envolvidas, aquecendo o interior do astro. À superfície, é emitida sobretudo como radiação visível e infravermelha e, em menor proporção, ultravioleta, demorando cerca de oito minutos e vinte segundos a chegar à Terra.

Ao atingir o nosso planeta, aquece a superfície e a atmosfera, contribuindo para manter temperaturas compatíveis com a existência de água líquida. Impulsiona também os ventos e muitas das correntes oceânicas e, através da evaporação, alimenta o ciclo da água. Torna ainda possível a fotossíntese, processo pelo qual as plantas, as algas e as cianobactérias utilizam a luz solar para produzir matéria orgânica - que sustenta quase todas as cadeias alimentares - e libertam o oxigénio que respiramos. Mais recentemente, aprendemos a converter diretamente parte dessa energia em eletricidade através de painéis fotovoltaicos.

«Son io! Son io la vita!», proclama o Sol pela voz do coro de abertura de Iris (1898), de Pietro Mascagni, ópera cuja ação decorre no Japão, o País do Sol Nascente. Essencial à vida, o Sol tornou-se também uma poderosa metáfora do conhecimento. Na República, Platão associa-o à ideia do Bem: tal como a sua luz permite aos olhos ver o mundo, o Bem permite à inteligência compreender a realidade. Luz, verdade e razão formariam, desde então, uma tríade que atingiria o apogeu no Iluminismo.

Esse simbolismo assume uma dimensão monumental em O Sol (1911), de Edvard Munch, tela com quase oito metros de largura que domina a Aula da Universidade de Oslo (imagem). Talvez seja também por isso que vários jornais, em diferentes países, têm o Sol no nome: tal como o astro, pretendem nascer todos os dias (ou, pelo menos, todas as semanas!), iluminar o mundo e chegar a todos.

Químico