segunda-feira, 09 mar. 2026

Snowflake Bentley

Os cristais de gelo crescem sob condições atmosféricas muito variáveis – sobretudo  temperatura e humidade do ar –, o que origina uma grande diversidade de formas. 

Até ao momento, o inverno de 2025-26 em Portugal tem sido marcado por episódios de neve mais frequentes e mais abrangentes do que os observados na última década, estendendo-se para além das zonas de maior altitude. Até no Algarve, na Serra de Monchique, já se registou queda de neve este ano.

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro nevão que presenciei. Foi em 1983, na minha Coimbra natal. Nessa manhã, não quis saber das aulas. Depois de fazer um pequeno boneco de neve na varanda, fui com colegas admirar o manto branco que cobria o Jardim Botânico. Só voltaria a ver nevar em finais de dezembro de 1995, quando fui para Basileia fazer o doutoramento. Recordo-me não só de o avião ter aterrado, já noite cerrada, sob neve, mas também de, mais tarde, sempre que caíam os primeiros flocos, as pessoas na rua sorrirem umas para as outras, num sinal de felicidade partilhada.

Mas o que é, afinal, um floco de neve? Pode ser constituído por um único cristal de gelo ou resultar da agregação de vários cristais durante a queda. Embora os cristais de gelo sejam praticamente incolores, a neve apresenta-se branca. Isso deve-se ao facto de a luz solar, ao interagir com os cristais, ser repetidamente refletida e refratada, espalhando-se de forma difusa em todas as direções. Como esse espalhamento não privilegia nenhuma cor da luz visível, a sua combinação é percebida pelos nossos olhos como branco.

Os cristais de gelo crescem sob condições atmosféricas muito variáveis – sobretudo temperatura e humidade do ar –, o que origina uma grande diversidade de formas. De modo geral, a temperatura determina se predominam placas ou colunas, enquanto a supersaturação em relação ao gelo – isto é, quando o ar contém mais vapor de água do que o necessário para estar em equilíbrio com o gelo – controla o grau de ramificação. Foi o físico japonês Ukichiro Nakaya quem, na década de 1930, demonstrou experimentalmente esta relação entre as condições de crescimento e a forma dos cristais.

Tipicamente, perto de 0 °C formam-se placas finas; em torno de −5 °C são mais comuns colunas e agulhas; próximo de −10 °C voltam a predominar formas planas; e entre cerca de −12 °C e −16 °C surgem frequentemente cristais dendríticos muito ramificados, sobretudo em ar fortemente supersaturado. A temperaturas inferiores a cerca de −20 °C reaparecem formas alongadas ou combinações de placas e colunas, dependendo do grau de supersaturação.

Abaixo da saturação, os cristais tendem a ser mais compactos; em ar supersaturado, formam estruturas mais delicadas e rendilhadas. Se um cristal começar a crescer como coluna a cerca de −5 °C e depois entrar numa região mais quente favorável a placas, podem desenvolver-se placas ou dendrites nas extremidades, originando as chamadas ‘colunas encimadas’.

Percebe-se, assim, por que razão a probabilidade de dois cristais serem idênticos é extremamente baixa, embora não seja zero, apesar do que popularmente se costuma dizer. Para essa crença contribuiu o trabalho de Wilson Alwyn Bentley (1865-1931), fotógrafo norte-americano que, ao longo de mais de quatro décadas, produziu milhares de fotomicrografias de flocos de neve. Bentley foi a primeira pessoa a fotografar de forma sistemática cristais de neve e a registar as suas características. Para o efeito, desenvolveu uma técnica de recolha dos flocos sobre veludo preto, que permitia captar imagens antes de fundirem ou sublimarem.

Era ainda jovem quando desenvolveu interesse pela meteorologia e pela microscopia, utilizando um microscópio oferecido pela mãe para estudar flocos de neve e outros fenómenos naturais. Em 1885 conseguiu, pela primeira vez, fotografar um cristal de neve ao adaptar uma câmara a um microscópio, dando então início a um registo fotográfico continuado desses cristais frágeis e efémeros. 

Publicou artigos em revistas de grande circulação, e, em 1931, lançou a obra Snow Crystals, que reuniu uma vasta seleção das suas imagens. Grande parte da sua coleção de fotografias encontra-se na Jericho Historical Society, em Vermont. Bentley doou a sua coleção original de fotomicrografias em placas de vidro ao Buffalo Museum of Science, tendo uma parte sido digitalizada e organizada numa biblioteca digital. ‘Snowflake Bentley’, nome pelo qual ficou conhecido, também já foi chamado ‘Sísifo na neve’.

Químico

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