No início do século XX, o belga naturalizado norte-americano Leo Baekeland procurava um substituto sintético para a goma-laca, uma resina natural produzida pelo inseto Kerria lacca, então muito utilizada como isolante pela nascente indústria elétrica e também como verniz. Já existiam materiais plásticos, como o celuloide, mas eram obtidos por transformação química de substâncias naturais, como a celulose. Baekeland foi mais longe: ao controlar a reação entre o fenol e o formaldeído, criou em 1907 a baquelite, o primeiro plástico inteiramente sintético. Moldável antes de endurecer, má condutora térmica e elétrica, depressa encontrou aplicação em interruptores, telefones, rádios e muitos outros objetos de uso corrente. Foi publicitada como «o material de mil usos».
O termo ‘plástico’, do grego plastikós, ‘próprio para moldar’, há muito que era usado, mas foi só então que começou a adquirir o sentido que hoje lhe damos. Era apenas o começo. Nas décadas seguintes, o PVC, o poliestireno, o polietileno e muitos outros plásticos entraram em quase todos os domínios da vida moderna. Leves, baratos, versáteis e duráveis, transformaram o quotidiano. Mas a durabilidade tinha um reverso: a persistência no ambiente. Os objetos são descartados; o plástico permanece.
A exposição à luz solar torna muitos plásticos quebradiços e mais vulneráveis ao desgaste mecânico, que pode fragmentá-los em partículas cada vez menores, dando origem a microplásticos e, em alguns casos, a nanoplásticos. Essas partículas não ficam muito tempo sós: bactérias, algas, fungos e outros microrganismos aderem à sua superfície, formando biofilmes. Nesses biofilmes, os microrganismos vivem em estreita proximidade, envolvidos numa matriz formada por substâncias poliméricas que eles próprios produzem e que os mantêm unidos. Cada fragmento de plástico colonizado transforma-se, assim, num pequeno habitat. Em 2013, investigadores que estudavam detritos plásticos no Atlântico Norte deram a essas comunidades o nome de plastisfera. A imagem de microscopia mostra uma comunidade de microrganismos sobre plástico recolhido no Oceano Pacífico (verde: bactérias; azul: algas; vermelho: matriz do biofilme; branco: hifas de fungos).
É justamente essa vida em comunidade que começa a preocupar os investigadores que estudam a resistência aos antimicrobianos, ou seja, a capacidade dos microrganismos para resistirem aos medicamentos usados para os combater, como acontece com as bactérias e os antibióticos. Habitualmente encarada como um problema associado sobretudo ao uso excessivo ou inadequado de antibióticos na medicina e na pecuária, a resistência pode também ser favorecida por fatores ambientais. A poluição por plásticos poderá ser um deles.
Num biofilme, a proximidade entre as bactérias favorece a transferência de ADN de umas para outras. Se esse ADN contiver genes de resistência aos antibióticos, esses genes podem disseminar-se pela comunidade.
A disseminação dos genes não é, porém, o único motivo de preocupação. Ao reterem à superfície antibióticos, metais pesados e outros poluentes, os microplásticos podem intensificar localmente a pressão seletiva. Nesse ambiente, as bactérias que já possuem mecanismos de resistência ficam em vantagem, sobrevivendo e multiplicando-se mais facilmente. Uma mesma partícula pode, assim, favorecer tanto a disseminação dos genes de resistência como a seleção das bactérias que os possuem.
Muita da evidência, porém, vem de estudos laboratoriais de curta duração, que não reproduzem plenamente as condições ambientais. Embora esses estudos indiquem que os microplásticos podem favorecer a seleção de bactérias resistentes e a transferência de genes de resistência, a simples deteção desses genes na plastisfera não demonstra que essa transferência ocorra no ambiente. Falta, pois, quantificar esse contributo e determinar se dele decorre algum risco para a saúde humana.
A incerteza quanto ao papel específico dos microplásticos não diminui, porém, a gravidade do problema mais amplo: em 2021, a resistência bacteriana aos antibióticos foi diretamente responsável por cerca de 1,14 milhões de mortes, estimando-se que, em 2050, esse número possa aproximar-se dos dois milhões por ano.
Baekeland procurava um material que resistisse à passagem da corrente elétrica. Mais de um século depois, a persistência dos plásticos pode estar a favorecer outra forma de resistência – a das bactérias aos antibióticos – cujo alcance só agora começamos a compreender.
Químico