O acaso não é cego

Na ciência e na tecnologia abundam exemplos de descobertas decisivas resultantes da atenção a fenómenos inesperados.

Horace Walpole (1717–1797), inglês fundador do romance gótico, atribuía especial importância às descobertas fortuitas. Durante o Grand Tour, ficou impressionado com um retrato da aristocrata Bianca Capello visto em Florença, que mencionou repetidamente na correspondência com o amigo Sir Horace Mann, enviado britânico naquela cidade. Mann viria a adquirir o retrato e a oferecê-lo a Walpole. Este, ao encontrar casualmente um elemento heráldico associado à pintura, descreveu o episódio como um caso de ‘serendipidade’, termo por si criado para designar a descoberta de algo valioso não procurado deliberadamente. Para cunhar este termo, inspirou-se na sua experiência e no conto persa Os Três Príncipes de Serendip (imagem), que mostra como o conhecimento emerge da conjugação do acaso com a perspicácia.

Na ciência e na tecnologia abundam exemplos de descobertas decisivas resultantes da atenção a fenómenos inesperados. Em 1796, Edward Jenner observou que as ordenhadoras que contraíam varíola bovina não desenvolviam varíola humana, conduzindo à formulação do princípio da vacinação. Em 1820, Hans Christian Ørsted verificou o desvio de uma agulha magnética na proximidade de um fio percorrido por corrente elétrica, revelando a ligação entre eletricidade e magnetismo. Em 1856, William Perkin obteve acidentalmente o primeiro corante sintético ao tentar sintetizar quinina. Em 1895, Wilhelm Röntgen descobriu os raios X ao observar uma fluorescência inesperada em experiências de descargas elétricas em tubos de vácuo. Em 1928, Alexander Fleming identificou a penicilina ao notar a inibição do crescimento bacteriano por um fungo contaminante. Entre 1932 e 1933, Karl Jansky detetou sinais de rádio provenientes do espaço ao investigar interferências em comunicações transatlânticas, dando origem à radioastronomia. Em 1938, Otto Hahn e Fritz Strassmann encontraram bário após bombardearem urânio com neutrões, descoberta que Lise Meitner e Otto Frisch interpretaram como fissão nuclear. Em 1949, John Cade verificou o efeito calmante do carbonato de lítio em cobaias, conduzindo ao seu uso no tratamento da mania. Na década de 1950, Simcha Blass notou o crescimento invulgar de uma árvore devido a uma fuga lenta de água numa tubagem, o que levou ao desenvolvimento da irrigação gota-a-gota. Em 1965, Barnett Rosenberg observou a inibição da divisão celular por compostos de platina, abrindo caminho à cisplatina como fármaco oncológico. Em 1968, na empresa 3M, um adesivo inicialmente considerado um fracasso revelou-se ideal para notas removíveis, dando origem ao Post-it®. Também o LSD, o Viagra e a semaglutida constituem casos de serendipidade farmacológica, em que efeitos não procurados conduziram a aplicações imprevistas. Na própria evolução genética, as mutações aleatórias são testadas pela seleção natural, e só a posteriori se manifesta o seu valor adaptativo, configurando um processo serendipitoso. Também na investigação histórica, embora pouco reconhecida, a serendipidade é decisiva: perguntas inesperadas, descobertas fortuitas e outros fatores conjunturais podem orientar o rumo e as conclusões da pesquisa.

Nas artes, um exemplo é o de Kandinsky que, ao observar uma das suas telas sob luz difusa e numa posição invulgar, não reconheceu de imediato qualquer objeto representado, percebendo então que a pintura podia existir sem referência figurativa, abrindo caminho à arte abstrata. Por sua vez, no Período Azul, Picasso, confrontado com limitações materiais que o levaram a trabalhar quase exclusivamente com tons de azul, transformou essa restrição numa descoberta criativa, dando origem a uma das fases mais marcantes da sua obra. O próprio afirmou: «Eu não procuro, eu encontro».

Em todos estes casos, a inovação nasceu da capacidade de reconhecer o valor do imprevisto. Como dizia Louis Pasteur, «o acaso só favorece as mentes preparadas».

Na vida quotidiana, um exemplo clássico de serendipidade é o caso da Honda, que, ao entrar no mercado norte-americano no início da década de 1960, planeava vender motas de grande cilindrada com base em análises de mercado, mas acabou por despertar inesperadamente o interesse do público pelas motas pequenas usadas pelos seus vendedores. Mas talvez nada seja mais expressivo – ainda que desajustado da sensibilidade contemporânea – do que a explicação do médico norte-americano Julius H. Comroe Jr.: «Serendipidade é procurar uma agulha num palheiro e encontrar a filha do agricultor».

 

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