Antes de a teoria microbiana se impor, os cheiros nauseabundos não eram apenas incómodos sensoriais. Eram sinais de perigo, de doença e, até, de impureza moral. O fedor associado a cadáveres, excrementos, corpos sujos, águas estagnadas, casas apinhadas, enfermarias mal ventiladas, bairros pobres, prisões, bordéis e ruas sem saneamento era tomado como indício de degradação física, insalubridade e desordem social.
A teoria dos miasmas dava fundamento médico a essa perceção. Muitas enfermidades – entre elas a malária, literalmente associada aos ‘maus ares’ – eram atribuídas à inalação de ares corrompidos, vapores pútridos e emanações da decomposição orgânica. O odor era o próprio agente nocivo. Tal conceção estava errada quanto à causa direta das doenças infeciosas, mas não era absurda do ponto de vista empírico. Muitos ambientes malcheirosos são, de facto, insalubres: sobrelotação, esgotos deficientes, águas contaminadas, resíduos acumulados e focos de putrefação favorecem a propagação de infeções, embora não seja o cheiro em si a produzi-las. O mau odor, quando muito, sinaliza más condições sanitárias.
Foi neste contexto que, nos séculos XVIII e XIX, surgiram campanhas de limpeza urbana, ventilação de edifícios, afastamento de cemitérios, controlo de atividades profissionais malcheirosas, construção de redes de esgotos e reforma dos hábitos de higiene. Para os sanitaristas, combater o fedor era combater a doença.
A teoria dos germes, antecedida por intuições sobre o contágio e pelas observações microscópicas de Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723), consolidou-se no final do século XIX sobretudo graças aos trabalhos de Louis Pasteur (1822-1895) e Robert Koch (1843-1910). Pasteur associou a fermentação e a putrefação à atividade de microrganismos, refutou a geração espontânea e deu novo fundamento à ideia de que agentes invisíveis podiam estar na origem de processos patológicos; Koch identificou microrganismos causadores de doenças como o carbúnculo, a tuberculose e a cólera, e formulou critérios experimentais para demonstrar essa relação causal. A explicação deslocava-se, assim, dos ares corrompidos para agentes biológicos específicos.
Apesar de tudo, os maus odores tenderam a ser associados a um baixo estatuto social, ainda que, nalguns casos, a sua perceção tenha mudado ao longo do tempo. Aquilo que uma época considera intolerável pode tornar-se banal noutra. O café é disso exemplo: em Londres, em 1657, o barbeiro James Farr foi denunciado por incomodar os vizinhos com os cheiros produzidos ao preparar e vender uma bebida exótica chamada café, que poucas décadas depois já faria parte dos hábitos urbanos dos ingleses.
Os cheiros acabam por constituir uma forma de conhecimento histórico: através deles é possível cartografar a sociedade. Patrick Süskind levaria esta ideia ao extremo no romance O Perfume (1985), mas já na literatura oitocentista os odores não servem apenas para dar realismo às cenas; classificam ambientes, corpos e classes. A cidade não é apenas vista: é cheirada, julgada e moralmente interpretada pelo nariz.
Em Portugal, um dos exemplos mais expressivos encontra-se em Fialho de Almeida. A sua prosa transforma o cheiro em sintoma de degradação urbana, doença social e corrupção moral. Tabernas, bairros pobres, corpos suados, comida, álcool, canos, roupa suja e podridão compõem uma Lisboa quase fisiológica, mais respirada do que contemplada. O odor não é ornamento realista: é diagnóstico; a urbe que cheira mal parece também doente.
Em A Cidade do Vício (1882), a capital surge como um organismo em fermentação patológica: «Insuportável, em Lisboa – o termómetro subindo sem atender a súplicas, subindo e putrefazendo tudo, os despojos subterrâneos e a frescura das mulheres, a carne de venda a retalho e a carne de aluguer». E, a par do cheiro «da carniça grelhada», surge explicitamente o vocabulário médico-miasmático: «O tifo fazia já propaganda por esses bairros, nas asas do miasma envolto de toda a banda, das portarias surdas, das consciências gangrenadas, das lotarias da Misericórdia, dos quartéis, dos tribunais e dos canos». Por sua vez, em A Ruiva (1881), há «exalações de aguardente» e «cheiro das sardinhas assadas»; em Lisboa Galante (1890), «cheiro de ratos, queijo assado, e roupa velha».
O fedor revela, assim, a cidade por detrás da sua aparência. A modernidade urbana não o aboliu: tornou-o menos tolerável e menos compatível com a imagem limpa que procurou construir de si própria.
Químico