sexta-feira, 12 jun. 2026

‘Mamíferos’: ciência com agenda

Ao eleger as ‘mammae’ como traço distintivo da classe ‘Mammalia’, Lineu não fez apenas uma opção anatómica: projetou na Natureza as preocupações e os valores do seu tempo, convertendo em ordem natural aquilo que era também ordem social.

Londa Schiebinger é uma das historiadoras da ciência mais influentes das últimas décadas. Professora na Universidade de Stanford, tem estudado a ciência moderna e os seus legados, com especial atenção ao período entre os séculos XVII e XIX. Em obras que vão de The Mind Has No Sex? (1989) a Secret Cures of Slaves (2017), passando por Nature’s Body: Gender in the Making of Modern Science (1993), mostra que a ciência nunca se desenvolveu num espaço neutro, à margem da sociedade. Pelo contrário, conceitos aparentemente objetivos – das classificações biológicas às práticas médicas – foram moldados pelas conceções sociais, políticas e culturais da época, em particular pelas ideias então dominantes sobre género, sexo e ordem natural.

Num dos capítulos de Nature’s Body, intitulado ‘Why Mammals Are Called Mammals’ [’Porque é que os mamíferos se chamam mamíferos’], Schiebinger analisa as razões que levaram Carl Lineu (1707-1778), figura central no desenvolvimento da taxonomia e da nomenclatura científica, a cunhar o termo Mammalia – designação científica latina da classe dos mamíferos, derivada de mamma, ‘mama’. Segundo a historiadora, esta escolha não foi uma decisão taxonómica imparcial, mas uma opção atravessada por conceções de género e de ordem social próprias do século XVIII.

O termo surgiu em 1758, na décima edição do Systema Naturae, obra em que Lineu dividiu o mundo natural em três reinos – Animalia, Vegetabilia e Mineralia – e aplicou sistematicamente a nomenclatura binomial zoológica, atribuindo nomes a quase 4 400 espécies animais, distribuídas por seis classes: Mammalia, Aves, Amphibia, Pisces, Insecta e Vermes. Com exceção de Mammalia, as designações dessas classes assentavam em termos que, em vários casos, remontavam a Aristóteles. Já no caso dos mamíferos, embora estes se caracterizem, entre outros aspetos, por possuírem pelos, três ossículos no ouvido e um coração com quatro cavidades, Lineu escolheu como denominador comum as glândulas mamárias. Schiebinger recorda que essas estruturas produtoras de leite apenas são ‘funcionais’ em metade dos representantes da classe – as fêmeas – e, mesmo nestas, só durante o período relativamente breve da lactação, podendo por vezes nem chegar a sê-lo. O naturalista poderia ter-se baseado noutras características igualmente singulares, e talvez mais universais, nomeadamente escolhendo Pilosa, ‘os peludos’ – não obstante a carga de género associada ao pelo, em especial às barbas –, ou Aurecaviga, ‘os de ouvidos ocos’.

A verdade é que a opção de Lineu foi um gesto político. Não porque tivesse inventado uma categoria sem fundamento biológico, mas porque escolheu, entre vários traços possíveis, aquele que melhor correspondia a preocupações do seu tempo. Procurava, desde logo, ultrapassar o termo tradicional Quadrupedia, inadequado para incluir seres humanos, baleias ou morcegos, e encontrar um critério comum que os unisse. As glândulas mamárias ofereciam-lhe esse denominador: mesmo quem recusasse ver o ser humano como quadrúpede dificilmente poderia negar a importância do leite materno na vida humana.

Tal escolha ganha particular sentido num século em que médicos, moralistas e pensadores políticos passaram a exaltar as virtudes do leite materno e a condenar o recurso às amas de leite. Entre essas vozes destacou-se Jean-Jacques Rousseau, que, no influente Émile (1762), defendeu que as mães deviam amamentar os próprios filhos, apresentando essa prática como condição para a regeneração moral da sociedade. Como nota Schiebinger, a amamentação tornou-se mesmo, por algum tempo, valorizada entre mulheres das classes altas, no quadro de uma nova centralidade atribuída à maternidade e do reforço do papel doméstico das mulheres. O Retrato de Madame Charles Mitoire com o seu filho, de Adélaïde Labille-Guiard, apresentado no Salão de Paris de 1783, ilustra bem esse momento: a maternidade e a amamentação surgem já como linguagem pública, moral e política.

Ao eleger as mammae como traço distintivo da classe Mammalia – critério cuja universalidade viria mais tarde a ser posta em causa pela descoberta de mamíferos como os monotremas ovíparos da Austrália e da Nova Guiné, entre eles o ornitorrinco, que possuem glândulas mamárias, mas não têm mamilos –, Lineu não fez apenas uma opção anatómica: projetou na Natureza as preocupações e os valores do seu tempo, convertendo em ordem natural aquilo que era também ordem social.

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