quarta-feira, 13 mai. 2026

‘Mamíferos’: ciência com agenda

Ao eleger as mammae como traço distintivo da classe Mammalia , Lineu não fez apenas uma opção anatómica: projetou na Natureza as preocupações e os valores do seu tempo, convertendo em ordem natural aquilo que era também ordem social.

Londa Schiebinger é uma das historiadoras da ciência mais influentes das últimas décadas. Professora na Universidade de Stanford, tem estudado a ciência moderna e os seus legados, com especial atenção ao período entre os séculos XVII e XIX. Em obras que vão de The Mind Has NoSex? (1989) a Secret Cures of Slaves (2017), passando por Nature’s Body: Gender in the Making of Modern Science (1993), mostra que a ciência nunca se desenvolveu num espaço neutro, à margem da sociedade. Pelo contrário, conceitos aparentemente objetivos – das classificações biológicas às práticas médicas – foram moldados pelas conceções sociais, políticas e culturais da época, em particular pelas ideias então dominantes sobre género, sexo e ordem natural. Num dos capítulos de Nature’s Body, intitulado ‘Why Mammals Are Called Mammals’ [‘Porque é que os mamíferos se chamam mamíferos’], Schiebinger analisa as razões que levaram Carl Lineu (1707-1778), figura central no desenvolvimento da taxonomia e da nomenclatura científica, a cunhar o termo Mammalia – designação científica latina da classe dos mamíferos, derivada de mamma, ‘mama’. Segundo a historiadora, esta escolha não foi uma decisão taxonómica imparcial, mas uma opção atravessada por conceções de género e de ordem social próprias do século XVIII. O termo surgiu em 1758, na décima edição do Systema Naturae, obra em que Lineu dividiu o mundo natural em três reinos – Animalia, Vegetabilia e Mineralia – e aplicou sistematicamente a nomenclatura binomial zoológica, atribuindo nomes a quase 4 400 espécies animais, distribuídas por seis classes: Mammalia, Aves, Amphibia, Pisces, Insecta e Vermes. Com exceção de Mammalia, as designações dessas classes assentavam em termos que, em vários casos, remontavam a Aristóteles. Já no caso dos mamíferos, embora estes se caracterizem, entre outros aspetos, por possuírem pelos, três ossículos no ouvido e um coração com quatro cavidades, Lineu escolheu como denominador comum as glândulas mamárias. Schiebinger recorda que essas estruturas produtoras de leite apenas são ‘funcionais’ em metade dos representantes da classe –as fêmeas – e, mesmo nestas, só durante o período relativamente breve da lactação, podendo por vezes nem chegar a sê-lo. O naturalista poderia ter-se baseado noutras características igualmente singulares, e talvez mais universais, nomeadamente escolhendo Pilosa, ‘os peludos’ – não obstante a carga de género associada ao pelo, em especial às barbas –, ou Aurecaviga, ‘os de ouvidos ocos’. A verdade é que a opção de Lineu foi um gesto político. Não porque tivesse inventado uma categorias em fundamento biológico, mas porque escolheu, entre vários traços possíveis, aquele que melhor correspondia a preocupações do seu tempo. Procurava, desde logo, ultrapassar o termo tradicional Quadrupedia, inadequado para incluir seres humanos, baleias ou morcegos, e encontrar um critério comum que os unisse. As glândulas mamárias ofereciam-lhe esse denominador: mesmo quem recusasse ver o ser humano como quadrúpede dificilmente poderia negar a importância do leite materno na vida humana. Tal escolha ganha particular sentido num século em que médicos, moralistas e pensadores políticos passaram a exaltar as virtudes do leite materno e a condenar o recurso às amas de leite. Entre essas vozes destacou-se Jean-Jacques Rousseau, que, no influente Émile (1762), defendeu que as mães deviam amamentar os próprios filhos, apresentando essa prática como condição para a regeneração moral da sociedade. Como nota Schiebinger, a amamentação tornou-se mesmo, por algum tempo, valorizada entre mulheres das classes altas, no quadro de uma nova centralidade atribuída à maternidade e do reforço do papel doméstico das mulheres. O Retrato de Madame Charles Mitoire com o seu filho, de Adélaïde Labille-Guiard, apresentado no Salão de Paris de1783, ilustra bem esse momento: a maternidade e a amamentação surgem já como linguagem pública, moral e política. Ao eleger as mammae como traço distintivo da classe Mammalia – critério cuja universalidade viria mais tarde a ser posta em causa pela descoberta de mamíferos como os monotremas ovíparos da Austrália e da Nova Guiné, entre eles o ornitorrinco, que possuem glândulas mamárias, mas não têm mamilos –, Lineu não fez apenas uma opção anatómica: projetou na Natureza as preocupações e os valores do seu tempo, convertendo em ordem natural aquilo que era também ordem social.

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