A gratidão para com um médico que, em algum momento da nossa vida, nos dispensou os seus cuidados é um sentimento profundamente humano. Ludwig van Beethoven (1770-1827) não foi exceção. Em sinal de reconhecimento para com Johann Adam Schmidt (1759-1809), seu médico desde 1801 - já depois de ter começado a sentir os primeiros zumbidos nos ouvidos, prenúncio da surdez que viria a afetá-lo -, Beethoven dedicou-lhe o Trio para piano, violino e violoncelo em mi bemol maior, op. 38. Esta obra é uma adaptação do seu Septeto em mi bemol maior, op. 20, uma composição de grande sucesso que circulava em arranjos para formações mais pequenas, adequadas à prática musical doméstica. O facto de Schmidt tocar violino e de a sua filha tocar piano poderá ajudar a explicar esta adaptação feita pelo compositor.
O apreço do compositor pelos médicos - que não o impedia de, frequentemente, a eles se referir como ‘asnos da medicina’ - não se ficou, porém, por aí. Em finais de abril de 1825, sofreu uma grave afeção digestiva e vomitou sangue. Viria a recuperar e em julho desse ano já se encontrava em condições de concluir o Quarteto de cordas em lá menor, op. 132. Em agosto, numa carta a Anton Schindler, músico que foi seu secretário e biógrafo, declarou ter sido Anton Georg Braunhofer (1773-1846), seu médico desde 1820, quem lhe salvara a vida. Beethoven exprimiu o seu reconhecimento para com o seu suposto salvador, dedicando-lhe dois cânones: Doktor, sperrt das Tor dem Tod, WoO 189, e Ich war hier, Doktor, WoO 190, cujos títulos se podem traduzir, respetivamente, por «Doutor, feche a porta à morte» e «Estive aqui, doutor». O grande compositor alemão morreria dois anos depois, provavelmente em consequência de complicações de uma cirrose hepática associada ao consumo excessivo de álcool.
O reconhecimento de Beethoven para com os médicos não foi único na história da música. Após o fracasso da estreia da Sinfonia n.º 1, Sergei Rachmaninoff (1873-1943) mergulhou numa profunda crise pessoal e criativa. Viria a recuperar graças ao tratamento do neurologista Nikolai Dahl (1860-1939), que, através de hipnoterapia e sugestão, o ajudou a reencontrar a confiança e a capacidade de compor. Em sinal de gratidão, Rachmaninoff dedicou-lhe o Concerto para piano n.º 2, obra que marcou de forma decisiva o seu regresso ao sucesso. Curiosamente, contam-se também entre os pacientes de Dahl outras figuras russas do mundo da música, como o compositor e pianista Alexander Scriabin e o cantor de ópera Feodor Chaliapin.
Mais no plano da estima pessoal, Johannes Brahms (1833-1897) dedicou os Quartetos de cordas n.º 1 e n.º 2, op. 51, a Theodor Billroth (1829-1894), figura maior da cirurgia do século XIX (na imagem), que manteve uma relação particularmente intensa com a música. Pianista e violinista amador de grande nível, participava regularmente em serões de música de câmara e foi amigo próximo de Brahms, que lhe enviava partituras para apreciação antes da publicação. Atento observador da vida musical do seu tempo, Billroth não hesitou em tomar posição em debates estéticos, manifestando reservas quanto à música de Richard Wagner, que considerava excessivamente afastada dos princípios formais que valorizava. No ensaio Wer ist musikalisch? [Quem é musical?], defendeu uma aproximação entre ciência e arte, em particular quanto à compreensão científica da aptidão musical e da perceção sonora. No plano clínico, Billroth destacou-se como um dos fundadores da cirurgia abdominal moderna, tendo realizado, entre outros feitos pioneiros, a primeira gastrectomia bem-sucedida por carcinoma do antro gástrico, intervenção que ficaria associada ao seu nome. Não se limitou, porém, à prática cirúrgica, na qual introduziu desde cedo práticas antissépticas, nomeadamente o uso da bata branca: desenvolveu também investigação sobre as infeções cirúrgicas. Em 1874, observou os efeitos bacteriostáticos do Penicillium, fungo a partir do qual Alexander Fleming, em 1928, viria a obter a penicilina.
Já o Quarteto de cordas n.º 3 em si bemol maior, op. 67, foi dedicado por Brahms a Theodor Wilhelm Engelmann (1843-1909), médico e fisiologista que se destacou no estudo da contração muscular e da fisiologia cardíaca, sendo especialmente conhecido pelas experiências sobre a fotossíntese que demonstraram o papel da luz na atividade dos cloroplastos. Violoncelista amador, Engelmann acolheu o compositor durante uma visita a Utrecht. Também aqui a gratidão tomou a forma de música.