quarta-feira, 13 mai. 2026

Do que somos feitos

A Tabela Periódica revela-se não só uma das grandes criações da ciência, mas também um surpreendente objeto literário.

A Tabela Periódica, proposta em 1869 por Dmitri Mendeleev (1834-1907), é uma das mais geniais sistematizações produzidas pelo intelecto humano. Ao ordenar por colunas os elementos químicos então conhecidos, por ordem crescente da sua massa atómica, o químico russo verificou que, nas linhas obtidas, se agrupavam elementos com propriedades semelhantes. Curiosamente, a motivação para esse empreendimento foi de natureza pedagógica: ao preparar o segundo volume do manual Princípios de Química, para os seus alunos da Universidade de São Petersburgo, Mendeleev sentiu a necessidade de organizar os elementos de forma racional, e não como uma lista arbitrária. O que torna o feito ainda mais admirável é o facto de, à época, serem conhecidos pouco mais de sessenta elementos e de ele ter identificado lacunas na organização que concebeu, que corretamente atribuiu à existência de elementos ainda por descobrir.

A Tabela Periódica viria a revelar-se mais do que um instrumento científico: seria também uma forma de imaginar o mundo e de o narrar. Isso vê-se em três livros muito diferentes entre si: O Sistema Periódico, de Primo Levi; O Tio Tungsténio, de Oliver Sacks; e White Lightning, de Edwin Herbert Lewis, obra de que não conheço edição em português. Em comum, mostram que os elementos químicos podem tornar-se matéria de memória, de ficção e de reflexão sobre a condição humana.

A mais célebre dos três é provavelmente o do italiano Primo Levi (1919-1987), químico de formação, escritor e sobrevivente de Auschwitz. Publicado em 1975 com o título original Il Sistema Periodico, é composto por 21 textos autobiográficos, cada um associado a um elemento químico. Não se trata, porém, de uma simples coleção de memórias organizadas de forma engenhosa: os elementos químicos funcionam como pontos de partida para pensar a infância, a formação científica, o trabalho de laboratório, a perseguição antissemita, a experiência do campo de concentração e o regresso à vida civil. A química aparece aqui não apenas como ciência da matéria e das suas transformações, mas também como uma linguagem de precisão, capaz de dar forma à experiência vivida.

Muito diferente é o livro de Oliver Sacks (1933-2015), neurologista e escritor britânico radicado nos Estados Unidos. Publicado em 2001, trata-se de uma autobiografia de infância e adolescência, centrada no fascínio do jovem Sacks pela química. O título remete para um tio ligado à indústria das lâmpadas de tungsténio, figura importante no universo familiar do autor. Ao longo da obra, Sacks recorda a Londres da Segunda Guerra Mundial, as experiências químicas feitas em casa, o encanto sensorial dos metais e dos minerais, e a descoberta da Tabela Periódica como uma espécie de mapa secreto da matéria. Mais do que contar a história de uma vocação científica, O Tio Tungsténio mostra como o espanto perante os elementos constituintes da matéria pode moldar a imaginação.

Mais antigo e muito menos conhecido, White Lightning, de Edwin Herbert Lewis (1866-1938), foi publicado em 1923, no mesmo ano da descoberta do háfnio. Lewis, que não era químico, mas um excêntrico professor de Inglês em Chicago, organizou o romance em 92 capítulos, cada um associado a um elemento, do hidrogénio ao urânio, por ordem crescente do número atómico. Esta grandeza, que define a identidade de cada elemento, adquiriu significado físico preciso poucos anos antes, quando Henry Moseley (1887-1915) demonstrou experimentalmente, com base nos espectros de raios X dos elementos, que correspondia à carga nuclear positiva de cada átomo, identificada mais tarde com o número de protões. É com base nessa estrutura narrativa que o romance acompanha o percurso de Marvin Mahan, um jovem fascinado pela química, entrelaçando a sua formação científica com experiências pessoais, afetivas e sociais. Como alguns dos elementos ainda não tinham sido isolados, certos capítulos, particularmente misteriosos, apresentam apenas o respetivo número, como acontece com os capítulos 43, 61, 75 e 87. O capítulo 41, intitulado Columbium, refere-se ao elemento que viria a ser designado por nióbio; o 86, Niton, ao radão; e o 91, Brevium, ao protactínio. Embora hoje ocupe um lugar periférico no plano literário, White Lightning conserva interesse enquanto exemplo precoce da apropriação literária da linguagem dos elementos.

Três obras, três usos da Tabela Periódica: em Primo Levi, como autobiografia moral e intelectual; em Oliver Sacks, como mapa de iniciação científica e de deslumbramento infantil; em Edwin Herbert Lewis, como princípio de composição romanesca. Em todos os casos, os elementos deixam de ser meras unidades da matéria para se tornarem instrumentos de pensamento, imagens de memória e formas de narrar a experiência humana. A Tabela Periódica revela-se, assim, não só uma das grandes criações da ciência, mas também um surpreendente objeto literário.

 

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