A 1 de julho de 1946, quase onze meses depois de Hiroxima e Nagasáqui, os EUA detonaram uma bomba de plutónio sobre o atol de Bikini, nas Ilhas Marshall. Integrado na Operação Crossroads, o ensaio avaliava os efeitos das armas nucleares sobre uma frota-alvo de 95 navios. O engenho, apelidado Gilda, aludia à personagem de Rita Hayworth no filme homónimo. Vinte e quatro dias depois, outra bomba de plutónio, Helen of Bikini, explodiu sob as águas da lagoa.
Seguiram-se outros 21 ensaios no atol até 1958. Em 1954, Castle Bravo, uma bomba de hidrogénio, foi o mais potente ensaio nuclear dos EUA. Nas bombas atómicas, a energia provém da fissão nuclear; nas de hidrogénio, a fissão inicia a fusão, ambas libertando energia. No total, os testes de Bikini equivaleram a quase 77 megatoneladas de TNT – cerca de 3700 bombas de Nagasáqui –, fazendo do atol um símbolo da corrida nuclear da Guerra Fria.
O vice-almirante William Blandy, responsável pela Operação Crossroads, foi na época fotografado com a mulher a cortar um bolo com a forma de cogumelo atómico (imagem). De agora em diante, o atómico parecia tudo valorizar. Surgiram cocktails, joias, penteados, super-heróis atómicos e canções como Atom Bomb Baby, em que a mulher desejada era comparada a um engenho explosivo. A associação das armas nucleares à mulher, em particular à femme fatale, aliando sedução e destruição, viera para ficar.
Quatro dias depois da explosão de Gilda, em Bikini, era lançado em Paris o biquíni, criado por Louis Réard, engenheiro de automóveis que geria a loja de lingerie da mãe. Para o apresentar, na Piscine Molitor, recorreu a Micheline Bernardini, dançarina do Casino de Paris, depois de as modelos profissionais terem recusado uma peça tão ousada. (Bernardini tem hoje 98 anos!) Réard tinha, porém, um rival: Jacques Heim, que criara pouco antes o Atome (‘átomo’), fato de banho de duas peças anunciado como ‘o mais pequeno do mundo’. Réard respondeu com uma espécie de fissão têxtil: reduziu o Atome a quatro triângulos de tecido que deixavam o umbigo a descoberto e cairiam como uma bomba atómica nas praias e nos costumes. Nascia, assim, um extraordinário branqueamento semântico: o nome de um atol usado para testes nucleares tornava-se sinónimo de juventude, sensualidade e liberdade.
A febre atómica não se limitou à moda. Na década de 50, os turistas reuniam-se nos hotéis de Las Vegas para observar os clarões dos ensaios no deserto do Nevada, enquanto a Miss Atomic Bomb envergava um fato de banho com uma nuvem de algodão em forma de cogumelo atómico. A domesticação do átomo tornou-se política oficial: a campanha Atoms for Peace, lançada por Eisenhower, prometia eletricidade, medicina e progresso. Entre ameaça e promessa, o átomo tornava-se irresistível à cultura popular. Na Alemanha, já na década de 60, o termo Atombusen – ‘busto atómico’ – reforçaria a ligação entre o imaginário atómico e o erotismo feminino.
Todo esse folclore, porém, assentava sobre uma história sombria e pouco conhecida. Em 1946, enquanto Paris se preparava para o déshabillement, os habitantes de Bikini enfrentavam consequências trágicas da corrida ao armamento nuclear. Em março, os 167 habitantes do atol foram levados pela administração militar norte-americana a abandonar a sua terra e a instalar-se em Rongerik, um atol desabitado cerca de 200 km a leste, ‘para o bem da humanidade’. Embora a decisão tenha sido apresentada como livremente consentida, a população não recebeu garantias escritas nem aconselhamento jurídico. As explicações, transmitidas por um intérprete, foram vagas; faltavam-lhe os conhecimentos, e, na própria língua, o vocabulário necessário para avaliar os riscos da radiação, da contaminação e da precipitação radioativa. De reduzidas dimensões e pobre em água e alimentos, Rongerik condenou o povo de Bikini à fome e à desnutrição. Ao fim de dois anos, foi transferido para Kwajalein, onde viveu alguns meses em tendas, e depois para Kili, pequena ilha sem lagoa nem águas abrigadas, incompatível com um modo de vida assente na pesca e na navegação.
Os que regressaram a Bikini no final da década de 60 foram novamente retirados em 1978, quando se verificou que alimentos como os cocos continuavam contaminados por césio-137, produto da fissão do urânio e do plutónio que a precipitação radioativa depositara no solo.
Bikini permanece sem população permanente. Os descendentes dos antigos habitantes vivem hoje dispersos pelas Ilhas Marshall e pelos EUA, mas continuam a considerar Bikini a sua terra ancestral.
Químico