Amarelo

Ora enaltecido, ora suspeito, o amarelo é uma cor literária: presta-se ao retrato de estados de alma fugidios, à ambivalência moral e à ironia.

Confesso que gosto de amarelo. Cor mal-amada, eu sei; de sentimentos mistos. É o Sol – o celestial girassol, como disse o poeta –, é o ouro, é o trigo. Evoca luz, calor, energia, espiritualidade, e vitalidade, mas também cautela, febre, mal-estar, rosto sem viço. O amarelo ilumina, mas inquieta; prende o olhar, mas não grita como o vermelho; previne com uma força quase instintiva. Em várias tradições ocidentais, é a cor da inveja, do ciúme, da falsidade, da traição e da cobardia. Quando pálido ou baço, sugere melancolia e esgotamento.

Nome de rio e de mar, na China; de serra e de casa onde a razão se extravia, em Portugal; da imprensa sensacionalista e de um célebre submarino, o amarelo oscila entre fulgor e sombra. Na linguagem, também vive de contrastes: dizemos «sorriso amarelo», quando a boca sorri e o rosto não acompanha. No quotidiano, divide-se entre o triunfo e o prosaico: está na camisola e na medalha do vencedor, no semáforo e no cartão de advertência. Estava também nas Páginas Amarelas.

Em criança, ouvi dizer que era a ‘cor de burro quando foge’. Em fuga, o animal iria em desespero; o amarelo seria a cor desse sobressalto. Não sei se a explicação assenta em algo mais do que na imaginação bem-humorada de quem ma deu. Mas faz algum sentido: usamos a expressão para falar de uma cor esquiva, difícil de precisar; e, na sua ambiguidade simbólica, o amarelo remete para aflição e inquietação.

Poucas cores tiveram na pintura um percurso tão instável como o amarelo, tanto no plano expressivo como no material. A paleta amarela foi vasta, e nem sempre benigna. O ocre amarelo, terroso e muito antigo, deve o seu tom a óxidos e hidróxidos de ferro hidratados; o auripigmento, um sulfureto de arsénio, seduziu durante séculos pelo brilho intenso, embora a sua beleza viesse com veneno. No século XVII, Vermeer fez do amarelo uma cor silenciosa e íntima: nas vestes da Mulher com um Colar de Pérolas (c. 1664) ou da Jovem Sentada ao Virginal (c. 1670), o tom opaco e amanteigado do amarelo de chumbo-estanho oferece uma claridade quente, mas controlada. No mestre holandês, este pigmento modela a intimidade: não incendeia a visão, antes a suspende. Preparado artesanalmente, cairia em desuso; o século XIX preferiu o amarelo-crómio (cromato de chumbo) e o amarelo de cádmio (sulfureto de cádmio), de fabrico industrial e de tons vivos.

Na pintura de Oitocentos, poucos exemplos são tão luminosos como a série dos Girassóis, sobretudo as versões de Arles de 1888, de Van Gogh. O amarelo deixa de ser uma cor entre outras: torna-se o assunto da pintura. O artista explorou diferentes tonalidades, sobretudo recorrendo ao amarelo-crómio, numa paleta quase monocromática, mas sem perder força e vibração. Também em A Casa Amarela, pintada em Arles em 1888, o amarelo não se limita à fachada: organiza a atmosfera da cena, convoca a luz do Sul de França e dá à composição uma intensidade quase irreal. Mas essa energia visual tinha o seu reverso químico: alguns amarelos modernos, em especial o amarelo-crómio, alteram-se com o tempo, escurecendo ou esverdeando.

Ora enaltecido, ora suspeito, o amarelo é uma cor literária: presta-se ao retrato de estados de alma fugidios, à ambivalência moral e à ironia. Em Alves & Companhia, Eça de Queirós escolheu-a, não por acaso, para o sofá do adultério. Também em O Papel de Parede Amarelo (1892), de Charlotte Perkins Gilman, a cor está longe de ser inocente. Encerrada num quarto por imposição do marido, médico, a narradora fixa-se obsessivamente no papel que reveste as paredes, cuja cor, desenho e textura se tornam progressivamente insuportáveis. O amarelo deixa de ser luz: é clausura, mal-estar, perturbação. Gilman denuncia assim a autoridade médica masculina e a reclusão doméstica das mulheres. O conto tornou-se uma referência da literatura feminista e da crítica à opressão feminina. Por sua vez, em O Rei de Amarelo (1895), de Robert W. Chambers, o amarelo assume uma dimensão ainda mais inquietante. O título remete para uma peça fictícia que atravessa os primeiros contos do volume: uma obra proibida, maldita, cuja leitura fascina, desorienta e pode levar à loucura. Entre presságios e formas de contágio mental, a cor torna-se sinal de um fascínio vertiginoso, por vezes fatal.

Talvez por tudo isso o amarelo seja a cor mais humana: como nós, vive de contradições. 


Químico