Na Criação de Adão, de Miguel Ângelo, no teto da Capela Sistina (na imagem), o dedo de Deus aproxima-se do de Adão, formado do pó da terra e ainda inerte, num gesto que traduz visualmente o relato bíblico segundo o qual o Criador insuflou nas narinas do primeiro homem o sopro da vida.
Também a estátua de marfim esculpida por Pigmalião e transformada em mulher por intervenção de Afrodite; o golem, ser de barro que, na tradição judaica, é trazido à existência por rituais místicos; o homúnculo que Paracelso imaginou poder fabricar por processos alquímicos; e, na ficção de Mary Shelley, a criatura que Victor Frankenstein constrói a partir de partes de cadáveres e dota de existência com recurso à ciência exprimem o mesmo desejo: criar vida onde ela não existe.
Quando, em 1818, Shelley publicou Frankenstein, prevalecia ainda a ideia de uma força vital que animava os organismos e os distinguia do mundo inerte. Dez anos depois, Friedrich Wöhler veio abalar essa conceção ao sintetizar, a partir de compostos inorgânicos, ureia - um composto orgânico, isto é, pertencente a uma vasta classe de compostos de carbono que inclui muitos dos constituintes da matéria viva. Afinal, uma substância produzida por muitos animais e eliminada na urina podia ser obtida em laboratório sem a intervenção de qualquer princípio imaterial associado à vida.
Em 1953, Stanley Miller e Harold Urey deram um novo passo: ao submeterem a descargas elétricas, destinadas a simular relâmpagos, uma mistura de gases que então se julgava reproduzir as condições da atmosfera da Terra primitiva, obtiveram diversos compostos orgânicos, entre os quais aminoácidos. Não criaram vida, mas mostraram que alguns dos seus componentes fundamentais podiam formar-se a partir de substâncias simples por processos exclusivamente químicos.
Faltava, porém, o passo mais difícil: organizar esses e outros compostos em sistemas capazes de se manter, crescer e reproduzir-se, o que poderá ter sido agora, pelo menos em parte, alcançado. No início deste mês, uma equipa da Universidade do Minnesota, liderada por Kate Adamala e Aaron Engelhart, anunciou, numa pré-publicação, ter construído de raiz uma célula artificial capaz de executar quatro funções associadas à vida: alimentação, crescimento, replicação do ADN e divisão. Os resultados, todavia, ainda não foram sujeitos a revisão por pares.
A chamada SpudCell é delimitada por uma membrana lipídica e possui um genoma sintético minimalista, constituído por 36 genes distribuídos por sete pequenas moléculas circulares de ADN - um número ínfimo face aos cerca de 20 mil genes codificadores de proteínas do genoma humano.
Contém ainda ribossomas, ARN de transferência, enzimas e outras moléculas que, em conjunto, lhe permitem transcrever o ADN e produzir proteínas. Uma dessas proteínas promove a fusão com lipossomas alimentadores, dos quais a célula recebe lípidos e outros componentes necessários ao seu funcionamento. Essa alimentação faz crescer a membrana e sustenta a replicação do ADN. A SpudCell pode também ser induzida a dividir-se: uma proteína que produz permite fixar à superfície da membrana moléculas fornecidas pelos investigadores, cuja acumulação a deforma até se formarem duas células. No entanto, no ensaio realizado ao longo de cinco gerações, os investigadores dividiram mecanicamente as células, forçando-as a atravessar uma membrana com poros muito estreitos. Uma variante concebida para produzir mais proteína de fusão captava melhor os recursos e, ao longo de cinco gerações, tornou-se mais abundante, evidenciando a ocorrência de seleção.
Não se trata, contudo, de um organismo autónomo: depende do fornecimento externo de energia e de componentes essenciais, não produz os seus próprios ribossomas e distribui de forma imperfeita as sete moléculas de ADN pelas células-filhas.
O nome SpudCell nasceu de uma brincadeira com a palavra inglesa spud, ‘batata’, e com a importância do tubérculo na alimentação da Polónia, país natal de Kate Adamala. Mas a designação evoca também o Sputnik, o primeiro satélite artificial e símbolo do início da era espacial.
O trabalho foi inicialmente rejeitado pela revista Cell, depois de um revisor considerar que não se tratava de «verdadeira biologia». Em contrapartida, há quem o considere «um marco na história da biologia e das células sintéticas». Resta saber se estamos perante o início de uma nova era ou se, passada a excitação inicial, não é batata que dê para tanto.
Químico